terça-feira, 1 de abril de 2014

REVIVENDO A PAIXÃO DE CRISTO NAS CIDADES HISTÓRICAS DE MINAS GERAIS



A bela Igreja de São Francisco, em Ouro Preto, decorada para a Semana Santa

Está chegando mais uma Semana Santa - o maior acontecimento anual nas principais cidades históricas de Minas Gerais. Uma celebração religiosa com dimensão nacional e possibilidade de atrair visitantes de países vizinhos, ou até mais distantes. Mas atrair como, se não é feita uma promoção maciça desses eventos e sequer temos o saudável habito de divulgar os programas das celebrações com antecedência razoável de 45 a 60 dias? A Semana Santa não deixa de ser um grande produto turístico e deve ser tratado como tal.
Mais uma vez, tudo será feito em cima da hora ou, talvez, nem se tome providência alguma. A Semana Santa é carente de um marketing competente, que nada tem a ver com esse marketing malandro e safado da política, baseado em engodos, mistificação e deslavadas mentiras para enganar os eleitores bobos e desinformados.
Reviver a Paixão de Cristo nas cidades barrocas do Ciclo do Ouro, em Minas, significa deixar-se impregnar por todo que a Semana Santa significa - um tempo de reflexão, de reencontro com a fé, de reaproximação e de perdão, de volta às nossas origens interioranas. Significa mergulhar fundo na essência de cada uma das celebrações - que, este ano, começam no Domingo de Ramos, 13 de abril, e vão até a Páscoa ou Domingo da Ressurreição, dia 20.  E tem o feriado de Tiiradentes na segunda-feira, dia 21, permitindo esticar o passeio um pouco mais.
Como é atestado pelas poucas pesquisas que temos, os principais visitantes, para cada cidade histórica, estão num raio de 100 km de distância. Portanto, que não se espere muito. Sempre que fui a Ouro Preto na Semana Santa, procurava detectar nas placas dos carros a origem dos visitantes e havia realmente muita gente de São Paulo-capital, do industrializado interior paulista e das cidades mais ricas. Também visitantes vindos do Rio de Janeiro ou Brasília-DF. Mas os mineiros eram maioria.
 
 Muitas placas eram de municípios mais próximos, como Belo Horizonte, Betim, Contagem, Ibnirité, Pará de Minas, Esmeraldas, Sete Lagoas, Itabirito, Caeté, Conselheiro Lafaiete, Barbacena, Carandaí,  Itaúna, Divinópolis, Iguatama, Azurita, Ponte Nova, Viçosa etc.
Como aconteceu nos últimos anos, estacionar no perímetro urbano será a maior dificuldade em Ouro Preto, porque não se preparam espaços convenientes, bem localizados, e não se proíbe a circulação de automóveis, ônibus e veículos pesados nas regiões centrais. O estacionamento é sempre caro e difícil, ficando os visitantes entregues aos "tomadores de conta". A sinalização urbana também deixa muito a desejar e o turista se perde. Para fugir da exploração nos preços,muitos vão e voltam no mesmo dia; e outros pernoitam em BH.
Neste blog, a gente procura valorizar a celebração da Paixão de Cristo nas principais cidades mineiras - além de Ouro Preto, também merecem ser citadas Congonhas do Campo,  Sabará, Mariana, São João del-Rei, Tiradentes, Caeté  e Barão de Cocais, entre as mais próximas; e quanto às mais distantes, é importante lembrar Diamantina, Serro, Datas, Gouveia e Conceição do Mato Dentro.
Para quem mora em BH e não quer se afastar muito, temendo os perigos nas estradas e mau estado de conservação, pode-se pensar nas comemorações aqui perto mesmo, como em Lagoa Santa, Pedro Leopoldo, Jaboticatubas, São José do Almeida, Ressaquinha, Nova Lima, Rio Acima, Moeda etc.

                DO DOMINGO DE RAMOS À MORTE
            NA CRUZ E GLÓRIA DA RESSURREIÇÃO

Relembrar os passos da Paixão de Cristo significa reviver seus acontecimentos principais: a entrada triunfal em Jerusalém no Domingo de Ramos; a Procissão do Encontro; o Ofício das Trevas; Jesus rezando no Monte das Oliveiras; a Última Ceia e a traição de Judas; a prisão de Jesus pelos guardas romanos, e depois Pilatos lavou as mãos; Cristo levando chicotadas, perfurado pela lança dos soldados e coroado de espinhos; o doloroso caminho, com a cruz pesada, até o alto do Calvário; sua crucifixão entre dois ladrões; a agonia e longa espera de sua morte; a silenciosa cerimônia do descendimento da Cruz; a Procissão do Enterro, à luz de velas; as 14 estações da Via Sacra; a solene vigília pascal; e a volta da esperança e o sentimento de alívio quando se descobre que o Cristo Crucificado ressuscitou.

Entre todas essas cerimônias litúrgicas , a mais emocionante é o Descendimento da Cruz, após o Sermão das Sete Palavras. O corpo de Cristo é colocado num esquife, coberto por panos brancos, e transportado, nos ombro dos fieis, até uma igreja escolhida onde ele vai ficar exposto. Muitas celebrações são feitas ao vivo, com personagens escolhidos nas próprias cidades. Já em Nova Jerusalém, no interior de Pernambuco (tema do próximo blog), as figuras de Jesus, Maria, São João, Pilatos, Maria Madalena, Verônica, Judas e outros personagens da Paixão de Cristo são revividos com a presença de atores e atrizes famosos da televisão.
A imagem de Cristo cruxificado impressiona os turistas


               ALÉM DAS CIDADES DO CICLO DO OURO,
           OS PEQUENOS MUNICÍPIOS DO INTERIOR



Não há cenário mais adequado para a celebração da Paixão do que as ladeiras íngremes de Ouro Preto, o Adro dos Profetas em Congonhas do Campo, a Catedral da Sé em Mariana, e as ruas calçadas de pedra em São João del-Rei,  Tiradentes, Diamantina, Sabará, Santa Luza, Caeté e tantos outros recantos privilegiados da história mineira.
Mas a Paixão de Cristo é
revivida também, de forma mais modesta - a começar pelos escassos recursos financeiros - em dezenas de outros municípios, através de intensa mobilização popular - e isso  acontece em lugares próximos ou distantes da Capital, como Santa Bárbara, São Gonçalo do Rio Abaixo, Catas Altas, Entre Rios de Minas, Nazareno, Prados, Barroso, Lagoa Dourada, Resende Costa, Paraopeba, Cordisburgo, Esmeraldas, Pitangui, Abaeté, Pompéu, Pirapora, Corinto, Inimutaba, Presidente Juscelino, Três Marias, Paracatu, Araxá, Patos de Minas,  Montes Claros, Januária, Almenarwa, Teófilo Otoni, Governador Valadares, Ipatinga, Timoteo, Corpnel Fabniciano, Acesita, João Monlevade etc.
É evidente que muitas tradições do passado acabaram esquecidas mas  não desativadas por completo. Certamente, em muitas cidades do interior de Minas, ainda haverá a queima do Judas, que marcou minha infância, a cada sábado de Aleluia, em Santo Antônio do Monte, a capital nacional dos fogos de artifício. Na véspera da Páscoa, na praça da Matriz, era preciso escolher um bode expiatório para ser execrado publicamente, e apedrejado - quase sempre, um boneco de pano enforcado e com o corpo cheio de bombas. Explodia e pegava fogo. A gente urrava de alegria.

Já imaginaram a fartura de candidatos a Judas Iscariotes que temos no Brasil de hoje, ainda mais em ano eleitoral? A garotada ia se fartar, mas, por questões de modernidade,  está mais voltada para videogames, celular, tablet e internet. Novos tempos, novos costumes. Judas já não dá mais Ibope.


                MÃOS ANÔNIMAS PREPARAM ESSES
                MARAVILHOSOS TAPETES FLORAIS
Quando chegam às cidades históricas mineiras, vindos de outros cantos do Brasil, os visitantes ficam maravilhados ao descobrir que, na calada da noite, entre o Sábado de Aleluia e o Domingo da Ressurreição, mãos silenciosas e humildes prepararam esses estupendos tapetes florais, subindo e descendo ladeiras. Não há holofotes para elas, nem câmeras de TV por perto. Tudo anõnimo mesmo, verdadeira obra comunitária.
Os tapetes florais, feitos com pó de madeira em cores alegres, são a maior tradição das cidades históricas

As ruas de pedra são cobertas por serragem de madeira, pintada em cores fortes, e com esta serragem são feitos todos os desenhos,  semeando beleza e magia por vários quarteirões - como na Rua Direita e Rua São José, em Ouro Preto. Os tapetes florais mostram algumas figuras da Paixão de Cristo, como Maria, os apóstolos,  Verõnica e Maria Madalena, mas mostram também crucifixos,  plantas e flores, pássaros e animais domésticos, sol e lua, céu estrelado e e crianças.
Muitos tapetes são bastante extensos, e o trabalho começa às dez da noite e avança pela madrugada. Não se baseia tudo na intuição ou criatividade de cada um, mas em desenhos previamente feitos - só que em vez de escritórios de engenharia e arquitetura, as projetistas e "taoeceiras" são pessoas humildes - como serventes escolares, donas de casa, lavadeiras,  professoras, costureiras, bordadeiras, atendentes de bares etc..
Outra tradição da solene Procissão da Resssurreição, o ápice da Semana Santa, é ver todos os balcões e sacadas dos casarões coloniais decorados com tapetes arraiolos e toalhas de renda, outra forma de participação marcante da comunidade. A Semana Santa acaba sendo uma soma de pequenos detalhes, colaboração espontânea - sempre com poucos recursos, contando mais com doações das cooperativas rurais e comércio local.

A divulgação  deste trabalho é a mais precária possível, e não devia ser assim. Aos tapetes florais se somam as fabulosas esculturas do Aleijadinho, talhadas em madeira maciça, e as impressionantes pinturas do Mestre Athayde. E todo o tesouro do barroco mineiro escondidos nessas igrejas,algumas com mais de 250 ou 300 anos de construção - que merecem estar abertas aos visitantes na maior parte do dia, e protegidas por segurança ostensiva e um sistema de câmeras ocultas..
Se não for pedir muito, o ideal é que cada cidade histórica mineira tenha, pelo menos, um roteiro das principais celebrações litúrgicas, e guias em língua estrangeira mostrando localização e detalhes das mais importantes igrejas do Ciclo do Ouro. É assim que se faz turismo e não na base da improvisação e amadorismo.
Qualquer que seja seu destino de viagem, meus votos de Feliz Páscoa e uma boa Semana Santa para você e sua família - dirigindo com cuidado redobrado, para voltarem sãos e salvos para casa. Nessas estradas assassinas, já sabemos que, infelizmente, em qualquer parte do país, alguns ou muitos não vão voltar. É a triste e  trágica estatistica dos feriados prolongados no Brasil, quando se morre por atacado.
Hélio Fraga
Abril de 2014


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