segunda-feira, 9 de junho de 2014

O QUE ENTENDO POR COPA DAS COPAS NÃO SE CONFUNDE COM VEXAME E VERGONHA




Muitos de vocês, que acompanham este blog, foram meus leitores nos bons tempos do programa esportivo "Bola na Área", na extinta TV Itacolomy, de 1966 a 1973, e da coluna diária "Por dentro do futebol", durante 17 anos, ao lado do saudoso Roberto Drummond (Bola na Marca), no jornal Estado de Minas. No total, somados outros jornais, foram 25 anos no Esporte e três Copas do Mundo: 1966, na Inglaterra; 1970, no México; e 1974, na Alemanha.
O que vou escrever agora pode ser novidade para os leitores mais jovens, mas aqueles acima dos 60 ou 70 anos já leram e ouviram isto antes. Vale a pena repetir, considerando-se a convicção quase generalizada de que o Brasil vai nos fazer passar vergonha, e esta prometida Copa das Copas tende a se transformar num vexame em escala mundial, cuja memória nós jamais teremos condição de apagar ou reverter. As imagens das TVs e os fatos acontecidos serão irreversíveis - motivo de deboche, descrédito, zombaria e de chacota. Os filmes das Copas são eternos, e serão vistos e revistos mundialmente.
Recorde-se que, desde o início de tudo isso, escrevi na coluna do extinto Caderno de Turismo que o número máximo de sedes devia ser oito, e não doze; que era preferível  reformar e adaptar o Morumbi do que construir um novo estádio em São Paulo (o Itaquerão, apesar do R$ 1,4 bilhão que já custou, pode ser o maior vexame desta Copa). Recorde-se também que o Brasil queria fazer 17 novos estádios, para alegria das empreiteiras (aquelas de sempre, que financiam campanhas políticas).

Tudo indica que, dependendo do tamanho do desastre previsto para os próximos 31 dias, e tudo de negativo ou humilhante que acontecer agora, o Brasil pode ser descartado pelo Comitê Olímpico Internacional como sede da Olimpíada de 2016. O COI pode recorrer a cidades que já organizaram os jogos, como Barcelona, Munique, Montreal, Los Angeles, Sydney, Atlanta etc.

Talvez por esta razão, nota-se um esforço desesperado dos governantes nesses apelos patéticos, via anúncios otimistas na TV, para que a torcida brasileira acredite mais, pegue suas bandeiras e saia alegremente pelas ruas; vá aos estádios e enfeite suas casas e carros; e entre no "clima". Nunca se viu tamanha indiferença, apatia e desinteresse. O povo está com medo e esperando pelo pior. Há uma descrença generalizada. 

Se o Brasil teve a pretensão de  se exibir perante o mundo como um país desenvolvido, dinâmico e empreendedor, organizado e sério, nação responsável e cumpridora dos compromissos, este foi o maior tiro no pé que já se viu. Nós íamos mostrar a essa aldeia globalizada, de bilhões de pessoas,  um país de mentira, uma enganosa prosperidade e uma falsa ilha da fantasia - mas a sucessão de vexames nos aeroportos em obras, a  comprovação dos estádios inacabados, insegurança generalizada, caos no transporte público, péssima rede hospitalar e falhas primárias na infraestrutura vão nos desmoralizar.
Ninguém pense, por favor, que estou apostando no caos e torcendo contra o Brasil. Podemos até vir a ganhar o  tão sonhado hexa mundial, mas precisamos de algo mais que o talento individual para superar fortes concorrentes - como Alemanha e Argentina (dois grandes favoritos) - e ainda respeitar muito adversários também fortes e perigosos, como Espanha ou Holanda (um deles vai embora mais cedo); a Itália sempre matreira (cresce nas decisões); o talento, garra e espírito de luta do Uruguai; e não podemos descartar previamente a França, Portugal e Bélgica. O título de melhor jogador da Copa estará entre Cristiano Ronaldo, Messi, Neymar e or argentino Di María, um dos maiores craques da atualidade - como vem comprovando no Real Madrid.


 TUDO DEPENDE DE UMA ESTRÉIA ARRASADORA

O Brasil vai depender muito de uma estreia avassaladora e convincente contra a Croácia (como Tostão, Pelé & companhia fizeram nos 4 a 1 contra a Tchecoslováquia na Copa de 70,  no México), e de brilhantes desempenhos contra México e Camarões, porque tem obrigação moral de ser o 1° colocado no Grupo A - mas correndo enorme risco de ser eliminado nas oitavas de final por Holanda ou Espanha, ou nas quartas de final.

Nosso grande desafio será crescer durante a competição, empolgando a torcida e superando, um a um, todos os obstáculos. Autoconfiança é importante, mas soberba e arrogância não combinam. Não se ganha uma Copa de sapato alto, com falso ufanismo, julgando-se imbatível e menosprezando os concorrentes. E nem sem um goleiro que inspire total  confiança. Nossa seleção precisa ser menos individualista, e pensar mais no aspecto coletivo.   Alguns são exibicionistas em excesso. Não jogam para o time, só para as câmeras das TVs.

Serão apenas 7 partidas até a decisão do título mundial, mas sete também para quem ficar em 3° e 4° lugares. Já vivi o bastante para ver, num sábado frio de junho de 1974, no Estádio Olímpico de Munique, o  Brasil perder (merecidamente)  um 3° lugar para a Polônia. Otimismo exagerado serve apenas aos manipuladores, marqueteiros espertos e mentirosos do futebol.  É preciso algo mais do que ter um bom time.  Correr muito e suar a camisa, ter respeito por ela. Jamais se imaginar intocavel.

Mas precisamos parar de pensar que a seleção de futebol é a pátria de chuteiras. Arnaldo Jabor, numa crônica magistral no caderno Magazine, do jornal "O Tempo", já nos alertou para o temor de elas se tornarem chuteiras sem pátria. 



    AS COPAS QUE REALMENTE NOS INTERESSAM
O que entendo por Copa das Copas é ver o Brasil diminuir esse abismo que o separa das nações desenvolvidas, civilizadas, prósperas e com 100% de alfabetização de adultos. Com aeroportos impecáveis, e um completo sistema de transporte urbano combinando trens, metrô  e veículos leves sobre trilhos - até mesmo bondes elétricos modulados, como em tantas cidades europeias. Parar com essas falsas soluções que temos visto por aqui.

Há mazelas demais para enfrentar, erros crônicos, desafios intransponíveis na nossa realidade atual. Não viverei o bastante para ver, um dia, os cidadãos brasileiros menos tensos e mais confiantes, bem educados, com impecáveis sistemas de educação, saúde pública, segurança e saneamento básico; com vias expressas, rodovias com 4 pistas duplas em cada sentido, e não essas estradas, esburacadas e mal conservadas, esses corredores da morte onde 50 mil pessoas perdem a vida, todos os anos.

Requisitos indispensáveis para se ganhar a Copa das Copas, aquilo que nos interessa como nação:
1) O Brasil erradicar definitivamente a corrupção institucionalizada, a roubalheira nas obras públicas, os estádios superfaturados e os escandalosos privilégios e benefícios concedidos às empreiteiras "amigas" do poder. Ter  concorrências mais honestas. E Tribunais de Contas comprometidos realmente com a fiscalização severa e apuração de desvios de verbas públicas (federais, estaduais e municipais).

2) Ter um Poder Judiciário livre de pressões e manipulações políticas, servindo realmente à nação e não a partidos detentores do poder. Uma reforma política urgente. E outra reforma, também imediata, dos códigos civis e penais, para que menores de 15 a 16 anos, no mínimo, já sejam considerados legalmente responsáveis pelos seus atos e paguem pelos crimes cometidos.

3) Ter uma classe política realmente preocupada com os cidadãos, honrando seus mandatos e não fazendo de seus gabinetes verdadeiros cabides de empregos. Acabar com o nepotismo em todos os setores da vida nacional. Ter uma distribuição mais justa dos bilhões arrecadados em impostos.  Transformar essa voracidade fiscal em recursos para viadutos e pontes, hospitais, usinas hidrelétricas, abrigos para idosos, orfanatos e creches, escolas públicas etc.

4) Ter um sistema de distribuição de renda que não obrigue as famílias mais pobres a viverem na dependência de bolsas ou outros tipos de favores oficiais, trocados por votos. Ter um sistema educacional baseado no mérito e na competência, e não em cotas raciais.

5) Viver numa nação onde não haja 48 mil homicídios por ano; em que os ônibus urbanos e viaturas policiais não sejam incendiados numa escalada jamais vista em toda a história republicana; em que as penitenciárias e delegacias não se transformem em universidades do crime; onde não haja nenhum tipo de promiscuidade entre as forças policiais e os chefes de quadrilhas; onde os traficantes não imponham a lei do silêncio e toque de recolher nas favelas.

6) Morar num Brasil realmente justo e humano, onde os idosos sejam respeitados, e onde os aposentados não se tornem vítimas indefesas dos bancos especializados em crédito consignado; em que mais de 63% das famílias não estejam endividadas; e onde a compra do tão sonhado primeiro carro não se transforme numa aventura em 60 ou 80 meses, sem saber que vão perder o veículo e tudo que pagaram por conta.

7) Ter indicadores econômicos honestos, claros e convincentes, em vez de inflação camuflada; saber que os relatórios e previsões são realmente isentos e confiáveis; acreditar  na honestidade das pesquisas e estatísticas; e não permitir a erosão e dilapidação de dois patrimônios nacionais, como Petrobras e Eletrobrás.

8) Ter uma rede hospitalar modelo, em que os doentes não morram nos corredores por falta de assistência, nem por falta de leitos, ou greves no sistema de saúde;  e onde as pessoas não tenham de madrugar para entrar numa fila, à espera de que o posto médico ou ambulatório abra às 8h da manhã, e elas recebam uma senha para fazer  exame urgente daqui a 60 dias.

9) Jamais ter de assistir a esse deprimente espetáculo de as revendas de veículos de luxo em Belo Horizonte protegendo suas vidraças e estoques de importados com tapumes, estruturas de metal ou containers de navios, porque isso é uma vergonha (sábias palavras do comandante geral da PMMG).


10) Enfim, e ainda em tempo, a esperança de viver num Brasil onde os meios de comunicação jamais tenham sua liberdade cerceada, ferida  ou ameaçada, mas, em compensação, procurem todos - TVs, jornais, rádios, revistas, blogs etc- estarem cada vez mais comprometidos com a educação do povo, campanhas de conscientização das comunidades, defesa da natureza, e erradicação de mazelas do tipo surtos de dengue. E, se não for pedir muito, que não haja tantos espertalhões travestidos de pastores e missionários, enganando e tomando dinheiro das pessoas mais pobres, carentes e desinformadas.

Se o preço da conquista deste novo Brasil tiver de passar antes pelos vexames e vergonhas que esta Copa do Mundo vai nos trazer, dos tumultos e protestos, dos atos de vandalismo, da sensação de impotência, insegurança e medo que nos invade, enfrentemos tudo isso resignadamente, obstinadamente. Se tivermos capacidade de reagir e mudar, haverá um amanhã melhor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário