segunda-feira, 28 de julho de 2014

GLÓRIA AOS HERÓIS MEXICANOS EM ACAPULCO - LA QUEBRADA


Acapulco, pérola da Costa do Pacífico, teve seu apogeu nos gloriosos anos 50 e 60



Esta é uma homenagem ao bravo povo mexicano, tão explorado, tão sofrido. Já devia ter sido feita na época da Copa do Mundo, que terminou há duas semanas. Mas o atraso não invalida a intenção, quando se trata de homenagear um povo através de seus heróis – os mergulhadores de La Quebrada, em Acapulco, jóia da costa do Pacífico e um dos destinos turísticos mundiais mais conhecidos nos anos 50 e 60, pelos filmes da Pel-Mex e a presença de milionários do jet-set internacional, e os maiores nomes dos filmes de Hollywood (Ava Gardner, Lana Turner, Clark Gable, Rita Hayworth etc).

A seleção do México veio ao Brasil este ano, para esta Copa de já saudosas  memórias,  e caiu no nosso Grupo A, ao lado de Croácia e Camarões Jogou quatro vezes em três capitais do Nordeste, e sua torcida foi admirada por onde passou, sempre alegre, comunicativa e bem comportada.
 
O México teve futebol para ir mais adiante, mas parecem ter armado uma cilada contra ele. O time dirigido por Miguel Herrera mereceu o respeito da torcida, pela sua qualidade técnica, começando pelo goleiro Ochoa, o segundo melhor da Copa, só perdendo para Neuer, um dos heróis do quarto título mundial da Alemanha.


O goleiro Ochoa, maior nome do México na Copa de 2014, injusta para ele e seus colegas

  Vale a pena lembrar alguns dos titulares mexicanos: Giovanni dos Santos, Cuadrado, Peralta,  Moreno, Reyes, Chicarito Henández e Rafa Marquez. Nas oitavas de final, México e Brasil terminaram empatados com 7 pontos - duas vitórias e um empate, por sinal entre eles (0 a 0).

O time da CBF se classificou em 1º lugar por ter melhor saldo de gols (5 contra 3), mas recorde-se que os mexicanos foram tremendamente prejudicados pela arbitragem, que anulou 2 gols legítimos contra Camarões. Na outra partida, eliminaram a Croácia,  derrotada por 3 a 1.

Então, o Brasil escapou de pegar a Holanda nas quartas de final (logo ela) e teve o Chile como adversário - jogo duríssimo, no qual os chilenos tiveram uma bola na trave (gol certo) no último minuto da prorrogação. Acabaram sendo eliminados nos pênaltis por 3 a 2.


A torcida mexicana mostrou sua vibração em Fortaleza (2 jogos), Natal e Recife

Já a seleção do México teve de enfrentar a Holanda, em Fortaleza, e vencia por 1 a 0 até os minutos finais. Quando parecia decretada a eliminação dos holandeses, veio um pênalti salvador (muito contestado pelos mexicanos e convertido por Huntelaar)), e depois Robben marcou o gol de desempate. O time de Ochoa merecia, pelo menos, ter chegado aos pênaltis.

Assim, pela sexta  vez  consecutiva, o México não passou das quartas de final. Mas caiu de pé, e de cabeça erguida. Então, pelo seu desempenho na Copa, esse time guerreiro  merece ao menos uma homenagem simbólica, e aqui entram os mergulhadores de La Quebrada, saltando de íngremes penhascos em Acapulco, hoje um tanto ofuscada em comparação com seu glorioso passado.

Uma vista deslumbrante dos penhascos de La Quebrada

  CORAGEM E SANGUE FRIO, E ALTOS RISCOS

Desde que os vi pela primeira vez, em abril de 2004, ao participar de um congresso turístico , tive um grande respeito e admiração pela sua bravura e coragem, arriscando diariamente suas vidas a troco de nada. Modelo de coragem e sangue frio, nervos de aço, gosto pelo perigo e aventura.


No extinto e saudoso Caderno de Turismo do jornal "Hoje em Dia", lembro-me de haver publicado uma página sobre esses "clavadistas",  como são chamados. Tive a felicidade de conhecê-los de perto , falar com eles, saber que são mexicanos humildes, de pouco estudo e origem pobre.

Passaram por um difícil e longo aprendizado. Desde meninos, eles viam seus pais e tios saltarem dos penhascos, onde as pedras cortam como navalha.

Quando chegam para os saltos, sorriem e parecem felizes. Não são meros exibicionistas. Eles cumprem uma missão, que é defender seu passado de glórias e mostrar que sua arte exige enormes sacrifícios.

Com humildade e dedicação, eles foram aprendendo os segredos dos saltos, onde qualquer erro pode ser fatal. O choque de um corpo contra as pedras, naquela velocidade e altura, pode representar  morte certa, ou paralisia para sempre. São heróis mesmo - corajosos, destemidos, perfeccionistas. Honra e glória para eles, como veremos adiante.



Os mergulhadores de La Quebrada arriscam suas vidas em cinco shows por dia
    DESAFIANDO A MORTE CINCO VEZES POR DIA
Para entender a bravura e sangue frio desses mergulhadores de Acapulco, é preciso misturar tudo isso em altas doses: audácia, sangue frio, destemor, impulsão do corpo, sincronia de movimentos, perfeita noção de tempo e distância, conhecimento dos movimentos das ondas do mar e das marés, controle absoluto dos nervos. Sem isso, não se faz um bom "clavadista". 

Além de altíssima dose de coragem, há também uma fé absoluta na Virgem de Guadalupe, a padroeira do povo mexicano, cuja festa nacional se celebra em 12 de dezembro.
 Ninguém se atreve a cair no mar sem antes beijar a pequena imagem da Virgem, no alto dos penhascos. Ali eles parecem renovar sua coragem para enfrentar os riscos de cada salto. 


Antes de cada mergulho, eles pedem proteção à Virgem de Guadalupe

São cinco espetáculos por dia – nos horários de 12h, 14h30, 16h30, 20h30 e 22h30. Perfilados, e liderados pelo seu capitão Ramón, já acima dos 40 anos, eles chegam em grupo pela Plaza Las Glórias, em seu primeiro contato com os turistas, espalhados por todos os espaços disponíveis e em busca dos melhores ângulos.Não fazem a menor ideia daquilo a que vão assistir.

Seguindo adiante, os “clavadistas” descem uma escadaria de cimento, mais de 100 degraus,  até as pontas dos rochedos. Então, caem na água e atravessam o estreito canal. A distância entre os rochedos não passa de 10 metros no ponto mais largo, e de cinco metros no mais estreito. Já do outro lado, como perfeitos acrobatas, eles sobem rapidamente os rochedos em busca de suas posições
para os saltos.

  ADRENALINA PURA, COM ARTE E DESTEMOR


Há três níveis para os saltos, o mais baixo com 30m, o médio com 35m e o mais alto com 40m.  Mas, vistos cá do outro lado, a altura parece bem maior.  Os meninos-aprendizes, antes de tomar gosto pela aventura, ficam sabendo que a garganta de pedras percorrida pelas ondas do mar tem profundidade média de 4 metros e meio. Dependendo do tamanho da onda, sobe para seis metros e meio.E, para aumentar o nível de risco, o fundo do mar, naquele trecho estreito, tem mais pedras do que areia- risco multiplicado.

Cada mergulhador precisa ficar atento ao tamanho da onda e sua trajetória. Tem de haver uma sincronia perfeita entre o impulso do corpo lá no alto (braços bem abertos) e o momento em que o corpo  cai no mar. Sem essa sintonia, o risco de morte se torna muito maior. E cada um desses 12 jovens enfrenta isso cinco vezes por dia.
Um show desse nível, sem qualquer rede de proteção, tinha de custar ao menos US$ 20 por pessoa, mas o valor cobrado chega a ser  ofensivo à dignidade do povo mexicano: apenas 1 dólar e meio. Organizando-se mais, e tendo uma gestão profissional de sua arte, eles poderiam fazer um sólido fundo de reserva e viver em melhores condições, longe das favelas.



          ÀS 22H30, SALTOS COM TOCHAS ACESAS

Para aumentar ainda mais o nível de risco, a grande emoção está reservada para 22h30, hora do último show. Então, os mergulhadores mais experientes saltam  com uma tocha acesa em cada mão, com risco de ter o corpo queimado pelo fogo, pela força dos ventos.

É uma espécie de apoteose final. Os turistas batem palmas e se dão por satisfeitos. Deviam ter a dignidade de dar uma nota de 50 dólares para eles. Não lhes faz falta... 

Se fosse em Las Vegas, um show deste nível, em recinto fechado, utilizando trampolins de ferro e tanques gigantes de vidro com água do mar, não ia custar menos de US$ 100 a 120  por pessoa. E o impacto não teria 10%  das emoções de La Quebrada.

Em Acapulco, os mergulhadores são orientados pelo líder Ramón. Ele deve continuar na ativa por mais alguns anos. Naquela época, em 2004, seus liderados, na fase dos 18 a 20 anos, eram Diego, Pancho, Javier, Alonso, Angel, Gustavo, Pepe, André, Pedro e Luís. Em média, 10 a 12 mergulhadores por espetáculo.

A arte de ser "clavadista"  é tradição de família, e passa de pai para filho. a10anos, Em 2004, eles já estavam na terceira geração, e uma quarta começava a ser formada. O aprendizado começa aos 14 ou 15 anos. Mas é importante saber nadar bem e ter gosto pela aventura.

Não basta saber mergulhar  e ter fôlego, o mais importante é não vacilar no momento decisivo. As rochas, nos dois lados, dão frente para um canal estreito e traiçoeiro. Há  um momento certo para cair na água. São frações de segundos.

O México, tão sofrido, tão devastado  por terremotos, e às vezes tão desrespeitado e humilhado pelo seu vizinho de cima, que lhe tomou um terço de seu território - onde hoje estão a Califórnia, Arizona, Nevada, Utah,  Novo México, Texas e outros estados norte-americanos - parece não dar o  devido valor a esses bravos mergulhadores de  Acapulco. São heróis e deviam ser motivo de orgulho  nacional.


Hélio Fraga –Editor
Trabalhos de postagem e edição: Ana Cristina Noce Fraga
28 de julho de 2014
Belo Horizonte/MG – Brasil

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