segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

ABRAM ALAS PARA BELO HORIZONTE. SEU CARNAVAL VOLTOU PARA FICAR


As Baianas Ozadas desfilaram pela cidade com uma animação incrível

Belo Horizonte andava precisando muito de uma injeção de ânimo, uma sacudida, um divisor de águas, depois de tantos fatos negativos recentes - dos quais o desabamento do Viaduto Guararapes foi o mais vergonhoso, em junho de 2014, em plena Copa, e até hoje não se apontaram os verdadeiros culpados, nem ninguém foi preso e processado. A Prefeitura continua fingindo que não teve nada com isso, em vez de aprofundar-se nas investigações e verificar onde e como falhou.
O estrondoso sucesso (desculpem) do Carnaval de 2015, que reuniu multidões e superlotou praças e avenidas, serve como um consolo e um alívio para todos nós. Ajuda a levantar nossa autoestima. Mostra que nossa população (ela em primeiro lugar) soube se mobilizar para fazer uma festa tão grandiosa. Encarou as inevitáveis dificuldades com um incrível espírito de superação. Os blocos caricatos fizeram o seu melhor, como dizem os jogadores de futebol antes dos clássicos.
Belo Horizonte, que quase sempre aparece de forma tão negativa na grande imprensa nacional, desta vez teve condições de mostrar ao Brasil sua nova cara: a capital de Minas não é mais o cemitério do samba, nem a cidade onde grande parte da população foge para a praia, sítios ou fazendas quando chega o Carnaval (mesmo tendo as piores estradas do Brasil).
Durante tantos anos no Caderno de Turismo do "Hoje em Dia", sempre procurei defender e valorizar o Carnaval de Belo Horizonte, lembrando as grandes Batalhas Reais do passado (anos 50 e 60); ressaltando a qualidade dos bailes nos principais clubes (Minas, PIC, Iate, Jaraguá, AABB, Belo Horizonte, Olympico, Mackenzie, Barroca etc); e recordando com saudade os bons tempos do Carnaval de rua ao longo da Av. Afonso Pena e os desfiles dos blocos Bocas Brancas da Floresta, Imigrantes da Abissínia, Domésticas de Lourdes, Tangarás, Aflitos do Anchieta e tantos outros.
Recordei, com saudade, as matinês infantis nos cines Brasil, Glória e Tupi (Jacques) e no auditório da Rádio Inconfidência, na antiga Feira de Amostras (atual Terminal Rodoviário), onde se retiravam todas as cadeiras. Lembrei as crianças fantasiadas de sacis com cachimbo preto, piratas da perna de pau, índios com penas na cabeça e caras pintadas, marinheiros de boné azul e tiroleses; e as empregadas domésticas fantasiadas de gatinhas com os criativos nomes de Mimi e Fifi. 
Hoje, vivemos outros tempos - só dá Super Man, Homem Aranha, Peppas, Chiquititas, Cinderelas, Brancas de Neve e sereias.  Camisas do Galo, Raposa e Coelho servem também como fantasias. Não se veste mais de pierrô apaixonado e colombina, como nas décadas passadas. As modas são outras. O Carnaval antigo foi extinto e ficou na saudade.



Para os anos futuros, a promessa  é melhorar ainda mais
          
             FOI UM CARNAVAL MARAVILHOSO, PARA
            FICAR NA HISTÓRIA DE BELO HORIZONTE


Belo Horizonte, capital de Minas Gerais, do alto de seus 117 anos de existência, revela ao Brasil inteiro novas faces de sua personalidade. Além de ser a terra natal do Mineirão e Mineirinho, da Igreja de São Francisco na Pampulha, da Praça da Liberdade, do Pirulito da Praça Sete, da Arena Independência e dos barzinhos da Savassi, e a cidade dos campeoníssimos Cruzeiro e Atlético, e do vôlei do Sada Cruzeiro, é também a nova sensação do Carnaval brasileiro - e lhes apresenta, com orgulho, os blocos Baianas Ozadas, e Então Brilha! como suas mais novas atrações.


Depois de tantos arranhões e estragos na sua imagem turística e institucional, Belo Horizonte realmente levantou-se, sacudiu a poeira e deu a volta por cima: conseguiu produzir há uma semana  - com a dedicação, garra e força dos seus moradores - um Carnaval inesquecível, que já entrou para a história. Um mar de gente superlotando praças, avenidas e ruas do centro e dos bairros. Milhares de foliões num ritmo alucinante e frenético. Calcula-se que foram mais de 1 milhão de pessoas. Para os mais otimistas, 1,3 milhões.
Belo  Horizonte precisava muito dessa virada de mesa, pois vinha sofrendo sucessivos desgastes nos últimos meses: queda do Viaduto Guararapes em plena Copa (o mundo de olho na gente); bloqueios e interdições da Linha Verde e Anel Rodoviário, e das avenidas vitais, em  horas de maior movimento; prédios pequenos desmoronando por erros de construção; choques de carretas e batidas violentas, matando dezenas de pessoas; recordes de acidentes em rodovias; violência urbana e  insegurança generalizada.
As fantasias em tom rosa e dourado do bloco Então Brilha! tomaram conta de Belô

A mobilização para a folia carnavalesca foi gigantesca, pelo tamanho dos desafios a enfrentar. Mas o povo demonstrou organização, comprometimento e um espírito de superação. Os blocos caricatos se multiplicaram, chegando a 200. As escolas de samba mostraram um grande esforço para sobreviver.  O poder público, através da Belotur e outros órgãos municipais, soube desempenhar seu papel com discrição e sem exageros. Antes, além de não ajudar, alguns órgãos complicavam e atrapalhavam.
Há outro detalhe muito importante também: foi um Carnaval de baixo custo, sem precisar recorrer ao dinheiro sujo da contravenção e dos traficantes de drogas. Enquanto,  em muitas capitais, a folia carnavalesca é nitidamente industrializada e robotizada, aqui ela é mais autêntica e simples, com menos luxo, menos esnobação. Ao contrário de muitas alegrias falsas e artificiais (porque há câmeras filmando e transmitindo), aqui ela parece mais sincera e espontânea. Bendito seja este nosso jeito de ser.
Para quem passou o Carnaval inteiro ligado às transmissões diretas da Globonews e outras redes, tendo uma visão mais ampla dos bailes e desfiles em escala nacional - mas teve tempo de acompanhar os netinhos nas matinês carnavalescas do Minas II, no bairro Mangabeiras, com salão superlotado e excelente desempenho da banda Via Lactea -, a magnitude dos desfiles de blocos em Belo Horizonte acabou surpreendendo. A festa se agigantou. se consolidou definitivamente, atingiu um novo patamar de aceitação e credibilidade, e depois dela não se pode pensar em retroceder.

Para isso, é indispensável planejar a médio e longo prazos,e já cuidar com carinho dos eventos de 2016. Ver o que funcionou e o que precisa mudar. Sonhar sempre mais alto. Resolver, urgente, os problemas relativos à interdição de ruas e praças, e reorganização do trânsito; aumentar o número de banheiros públicos; colocar mais cestas de lixo; melhorar a segurança dos cidadãos; combater todo tipo de vandalismo; coibir a exploração nos preços (ver comentário sobre os desafios de marketing e promoção, e o papel ampliado da Belotur, ao final deste blog).

  NO EMBALO DAS BAIANAS OZADAS E ENTÃO BRILHA!

Não conheço ninguém dos blocos Então Brilha! e Baianas Ozadas, mas fiquei com a melhor impressão deles, só de ver as fotos de seus desfiles nas páginas do jornal que assino (O Tempo) e as imagens nas TVs e internet. Os dois blocos pareceram bem entrosados e ensaiados. Desfiles praticamente sem falhas. Agitaram a multidão e deram seu recado com competência e brilho.
No caso do Então Brilha!, há um detalhe relevante: a ousadia de iniciar o desfile em plena zona boêmia, reunindo-se na Rua Guaicurus 660, uma região degradada e mal frequentada do centro comercial - uma espécie de resto do resto. A partir da zona, o bloco rosa e dourado seguiu embalado seu caminho e atravessou o centro, até chegar à Avenida. 
Por onde passou, o Então Brilha! foi arrastando multidões e encantando o povo


Imagine-se a alegria que o Então Brilha! levou àquelas mulheres quarentonas sofridas, pisadas e exploradas, muitas vezes escravas de cafetões. Deve ter sido emocionante vê-las caindo no samba e deixando a vida levar. A forma como foram acolhidas no meio do bloco é um bom tema para reflexão sobre inclusão social ou Campanha da Fraternidade. Gestos concretos de anônimos valem mais do que palavras piedosas de rezadoras.
Mas não citar outros blocos igualmente esforçados é uma injustiça. Então, é preciso mencionar seus nomes e respectivos bairros - como o Tchanzinho da Zona Norte, Dazíndias (Funcionários), Ordinaaaarios (Santa Efigênia), Genoveva Papuda (Santa Tereza), Jangalovers (Cruzeiro) Maringueiro (Bairro da Graça), Baianeiros (Castelo), Pavão de Krishna (Lagoinha), Juventude Bronzeada (Floresta), Bloco do Peixoto (Santa Efigênia) e Magnólia (Caiçara).
Entre dezenas, outros blocos que participaram do Carnaval 2015 em  Belô:
Bloco Rei (Coração Eucarístico), Narcosados (Funcionários), Bloquim Dubem (Cidade Nova), Bloco da Língua (São Salvador), Bloco do Csamba (Santo Agostinho), Beagá (Caiçara), Máfia Azul (Barro Preto), Tcha Tcha Tcha (Savassi), Pavão Misterioso (Santa Tereza), Valência (Floresta), Dados e Dadas (Savassi), Praia da Estação (Centro), As Grandes Figuras (bairro Ouro Velho), Impresta 10 (Santa Tereza), Afoxé Bandarerê (Concórdia)

GRANDES DESAFIOS PARA A BELOTUR ENFRENTAR

Mauro Werkema, presidente da Belotur, com Valdez Maranhão

Acreditem mesmo, porque é a pura verdade. Não imaginem que estou aqui a jogar conféti num colega de profissão e meu amigo pessoal há mais de 50 anos - o jornalista Mauro Werkema, presidente da Belotur. Não acompanho de perto seu trabalho, a gente mal se encontra uma vez por ano, ou nem isso. Mas sei que foi escolhido pela PBH para o cargo por ser competente, correto, honesto e muito trabalhador.

Sou testemunha de sua lealdade, dedicação e espírito público. Werkema tem boa base cultural, capacidade, liderança e habilidade para dialogar. Sabe conviver com as pessoas e ouvi-las. Brilhou em todos os postos que ocupou anteriormente e foi um dos melhores Diretores de Redação que passaram pelo "Estado de Minas".

Ele sabe que sempre esperei muito mais da Belotur - antes dele, e agora com ele -  porque, tendo  uma equipe tão numerosa, devia trabalhar mais pelo turismo da cidade e de MG. Durante anos, quando ainda editava o Caderno de Turismo do "Hoje em Dia", vi a Belotur ser usada como moeda de troca entre a PBH e partidos políticos coligados. Muitas indicações de diretores foram políticas, de gente que não entendia nada do assunto (queria os cargos, não os encargos). Mas gostava  dos "happy hours", almoços, festas e recepções do chamado trade turístico.
Por tudo que a Belotur conseguiu fazer neste Carnaval, creio que Werkema se superou. Conseguiu montar um grupo unido, enfrentou dificuldades, lutou por aquilo que considerava justo. A festa é altamente complexa e cheia de imprevistos. Imagine-se a dureza de enfrentar falta de banheiros químicos, carros estacionados em locais de desfiles, trânsito confuso, deficiências de fiscalização e policiamento, carência de lixeiras etc. Ter de conviver com alguns absurdos e enfrentar outros - como aquele de o bairro Santa Tereza ser obrigado a encerrar os desfiles às 19 horas, com dia claro ainda, um atentado ao próprio Carnaval.
Agora, há grandes desafios diante da Belotur e seu  presidente: melhorar o nível da festa, atrair mais patrocinadores, planejar com mais antecedência, criar comitês de trabalho, delegar funções aos comandos dos blocos e escolas, estimular a participação das comunidades e periferias.
Como competente homem de marketing, Mauro Werkema sabe que este é o momento de explorar comercialmente o sucesso estrondoso do carnaval, atraindo patrocinadores de peso. Está na hora de conversar sério com vários segmentos: o automotivo, com a Fiat, Iveco, Magnetti Marelli, Selenia e fornecedores; o de telefonia, com a Net, Claro, Vivo, Tim, GVT, Oi e Sky; o das cervejarias, como Ambev e Brasil Kirin; o das grandes indústrias, como Usiminas e Gerdau; o das mineradoras, como Anglo Gold e Samarco. Há muitos segmentos com quem conversar.

Melhor não falar nada com grandes empreiteiras, porque elas estão afundadas até o pescoço na podridão moral dos petrodólares - que enoja este país.
O sucesso do carnaval de Belô em 2015 nos habilita a ter patrocinadores que se interessem em colar sua imagem à grandeza do desfile dos blocos e escolas de samba – tendo à frente as Baianas Ozadas e o bloco Então Brilha!

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Belo Horizonte-MG / Brasil
23 de fevereiro de 2015
Hélio Fraga - Editor
Postagem e edição: Ana Cristina Noce Fraga
 

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