sexta-feira, 4 de setembro de 2015

O GLORIOSO PASSADO DE NOVA ORLEANS E O RENASCIMENTO DA CIDADE PARA O TURISMO

O antigo  e o novo convivem em plena harmonia em Nova Orleans



Não existe outra cidade como ela nos Estados Unidos - aliás, ela nem parece norte-americana, sem ter nada daquela formalidade crônica e institucionalizada. Nova Orleans é completamente diferente, parece mais francesa e espanhola, e se  mostra latina da cabeça aos pés. A gente até imagina estar em outro pais, tal seu grau de irreverência, espontaneidade e informalidade. Uma cidade vibrante, festeira como ela só,  onde a noite parece não querer acabar - isso numa nação onde a maioria dos restaurantes e casas noturnas encerra o expediente às onze da noite para  dormir cedo. 

De certa forma, Nova Orleans deixa a vida rolar e não liga para as conveniências. Não tem a psicose de ser politicamente correta, certinha, bem comportada - ao contrário, parece uma transgressora. Especialista em quebrar tabus e assustar pela sua ousadia.
Imponentes casarões coloniais em sacadas e varandas em ferro trabalhado

Nova Orleans é agitada, mas sem muita  ordem e bons modos. O pecado está em toda parte, para desespero dos puritanos e conservadores. Gosta de celebrar a vida, e seu Carnaval tradicional - o Mardi Gras - tem desfiles apoteóticos pelas ruas centrais, com dezenas de carros alegóricos entulhados de mulheres bonitas fantasiadas e com os Kings no trono, os reis da folia. Festa de rua autêntica,mas sem trios elétricos barulhentos e muito menos Sambódromo. Nada a ver com o Carnaval do Rio. Mas encanta pela espontaneidade.

Em Nova Orleans, à beira do Rio Mississippi, que aqui se encontra com o mar, o jazz e os blues estão por toda parte e atraem multidões ao French Quarter, o Quarteirão Francês que concentra os melhores restaurantes, templos do jazz, discotecas e casas noturnas. Vive-se intensamente por aqui. A cidade parece acordar de ressaca, todas as manhãs. Uma metrópole descontraída do Estado da Louisiana, sem falsos pudores -  frenética, agitada, empolgante. Imprevisível quase sempre.
Essas são as principais regiões da cidade

Antes de ser comprada pelos Estados Unidos em 1803, Nova Orleans pertenceu à Espanha e depois tornou-se propriedade francesa. São marcas que o tempo não apagam: um centro histórico chamado de Vieux Carré e ruas estreitas com nomes franceses, em azulejos azuis e brancos, parecendo que a gente está no Quartier Latin de Paris. Aliás, Nova Orleans lembra muito Pigalle, Follies Bergère, Lido de Paris e Montparnasse. 

Por que falar de Nova Orleans hoje? A rigor, nos dois anos e meio de existência deste blog, a capital do jazz e terra de Louis Armstrong (patrono do Aeroporto Internacional) já merecia ter uma edição especial, feita com o coração, desde janeiro de 2013, data da primeira postagem. Mas há uma razão forte para que seja agora, e  não se perca a atualdade. 

Na  última semana de agosto, completaram-se 10 anos da devastação total de Nova Orleans pelo furacão Katrina, e a cidade boêmia voltou a despertar atenção da midia internacional, comparando-se seu passado glorioso com a realidade atual. Muito se falou dela no mundo inteiro: as 1.800 vitimas fatais, gente morrendo de fome, as centenas de casas inundadas e destruídas, a terrivel crise que quase naufragou seu turismo,  as perdas da indústria de cruzeiros maritimos, o renascimento do famoso ginásio Superdome, e tudo aquilo que ainda não foi possivel reconstruir.

Lembrou-se da falta de ação  e insensibilidade do  ex-presidente George W. Bush, cuja letargia acabou retardando os primeiros socorros e o processo de recuperação das áreas devastadas. O atual presidente dos EUA, Barack Obama, esteve na cidade, reuniu-se com autoridades locais, destinou novos recursos,  e aproveitou para ver os progressos nas obras e o muito que ainda resta fazer. Mas a verdade é que Nova Orleans está de pé, disposta a voltar aos tempos de glórias.
Duas pontes de ferro são herança do passado na beira do Rio Mississippi


Numa antevisão de melhores dias, e comprovando o renascimento da cidade para os visitantes dos cinco continentes - certos de que o pior já passou -, Nova Orleans foi aprovada há 2 anos como sede do IPW 2016, o maior congresso da indústria do turismo dos Estados Unidos, que será de 18 a 22 de junho do ano que vem. 

Já se trabalha intensivamente na mobilização de milhares de voluntários e atividades dos vários comitês de planejamento. A população local está mobilizada. O congresso vai reunir mais de 6.500 delegados internacionais (75 nações) e as maiores corporações norte-americanas - companhias aereas e maritimas, hotéis e resorts, mercado de eventos, transportadoras terrestres, locadoras  e prestadores de serviços em geral.

Nova Orleans
não quer deixar por menos - pretende fazer em 2016 o maior IPW de uma série histórica  de quase 50 congressos internacionais. Vamos esperar e conferir.


O ÚLTIMO CONGRESSO NA LOUISIANA FOI EM MAIO DE 2002
Ainda com o antigo nome de International Pow Wow (agora abreviado para IPW), e produzido pela antiga Travel Industry Association of America (leia-se agora U.S. Travel Administration, a entidade representativa da indústria do turismo), o congresso teve Nova Orleans como sede de sua 34ª edição em maio de 2002, lotando todas as dependências do já gigantesco Centro de Convenções Ernerst N. Morial. Naquela época, há 13 anos,  participaram mais de 6 mil congressistas e a cidade jamais poderia imaginar que, dali a 3 anos, ela quase seria varrida do mapa dos Estados Unidos, tais os efeitos devastadores do Katrina.
Barcos a vapor, como este Delta Queen, têm restaurantes e cassinos

Tive a honra de participar deste congresBaso, ainda como editor e colunista do falecido Caderno de Turismo do "Hoje em Dia".  Foi meu último contato com a cidade, da qual tinha o orgulho de ser cidadão honorário desde setembro de 1989, por ato do então prefeito Sydney Barthélemy. Não vamos pensar que isto seja um mero  diploma de papel com o selo dourado do Estado da Louisiana. Isso cria vínculos eternos. Por isso, sofri demais com a fúria do Katrina e a maneira como Nova Orleans foi duramente atingida.
Com 10 meses de antecedência, a cidade já está abrindo inscrições para o congresso IPW de 2016, e pretendo inscrever meu nome mais uma vez, agora como blogueiro, esperando ser aprovado pelo Comitê Organizador. Os EUA dão um grande valor à comuncaçãp via internet, sabendo que o futuro da informação está aqui e a mprensa escrita terá de reavaliar uma reestruturação geral em aspectos fndamentais - como mais análises mais criteriosas, menos amadorismo, melhores colunistas, textos mais inteligentes  (vale lembrar que tem gente jovem chamando de "tento anotado" o gol marcado - bobagem colossal).
UM REENCONTRO COM PAISAGENS NUNCA ESQUECIDAS

Enyão, daqui a 10 meses, terei um emocionado reencontro com paisagens e cenários que nunca foram esquecidos, e que podem estar profundamente alterados - a velha Catedral da Jackson Square, os bondinhos coloridos rodando pela Rua do Canal (Canal St.), os restaurantes especializados em comida Cajun, os copos gigantes servindo o coquetel Jambalaya, os barcos  a vapor singrando nas águas barrentas do Rio Mississippi, as movimentadas passarelas suspensas do River Walk, a nova  coleção de animais do Audubon Zoo, os tubarões e golfinhos do Aquarium,  a colossal estrutura prateada gigantesca do ginásio  Superdome. 
E, numa caminhada recordando os bons tempos das décadas de 80 e 90, vou tentar rever a fábrica da cerveja Dixie, as carruagens brancas com cavalos enfeitados com penas coloridas na Jackson Square, os cassinos reabertos, os navios atracando no cais do porto e ver os imponentes casarões coloniais com varandas em ferro batido da Bourbon Street. 

A imponente Catedral domina a paisagem da Jackson Square


Tentarei descobrir onde estão e como ficaram antigos restaurantes como o Antoine`s, o Pat O'Briens e The Court of Two Sisters. O melhor programa em Nova Orleans, em décadas passadas, era almoçar em pátios amplos cheios de mesas com toldos brancos, sob árvores frondosas com mais de 150 anos.

Tenho ainda grande interesse em rever as mudanças feitas no Maison Bourbon, Jealousie  e Preservation Hall, os dois principais centros de veneração do jazz e dos blues. Tudo aqui tem Louis Armstrong e Ella Fitzgerald como fonte de inspiração.

   TUDO AQUILO QUE O  KATRINA NÃO DESTRUIU
Nesses 13 anos sem rever minha Nova Orleans, imagino que a cidade mostrou uma energia incomum e um espírito de tremenda resistência, pois conseguiu sobreviver a um terremoto e tsunami juntos. Claro que a tragédia de agosto de 2005 deixou marcas profundas. Ela sobreviveu a uma catástrofe. Nunca mais será a mesma. Restarão as fotos e imagens das TVs para retratar tamanha destruição e desolação.
Carruagens brancas enfeitadas levam turisdtas ao passeio no Vieux Carré

Consultando antigos jornais (velha mania de guardar papel, para que reste alguma memória deles e os netinhos acabem lendo um dia), descobri uma matéria de capa publicada em novembro de 1978, no antigo Caderno de Turismo do "Estado de Minas", onde eu falo de minha emoção ao conhecer o salão de festas Blue Room, do Hotel Fairmont, onde Ella Fttzgerald se exibia todos os anos. E cito o restaurante do hotel, Sazerac, já considerado na época o melhor da cidade.
Alguns trechos que vale a pena relembrar, pois o Katrina não os destruiu:
1) Nova Orleans foi vítima de dois grandes incêndios, em 1788 e 1794, que devastaram grande parte de seu passado histórico, mas a cidade conseguiu se recuperar - prova disso é a beleza do French Quarter, que ressurgiu das cinzas e está de pé.  O Quarteirão Francês se espalha pelas ruas Bourbon, Royal, St. Louis, St. Peter, Toulouse, Burgundy, Bienville, St. Ann. Dumaire, St. Phillip etc. Se a Bourbon Street é o templo do jazz, a Royal é a rua os hotéis-boutique, galerias de arte e joalherias.
2) Falando em vida noturna, cito algumas casas que talvez nem existam mais: Duke's Place, The Esplanade, Desiré, Le Club, River Queen, Traditional Hall e Pete Fountain's. E sugiro que os turistas façam um passeio de bondinho da linha St. Charles, considerada a mais antiga do mundo, pois eles circulam desde 1835.
3) Citando dados daquela época: o porto de Nova Orleans é o segundo maior dos Estados Unidos,em dimensão e importância, podendo descarregar 85 navios ao mesmo tempo. O movimento era de 5 mil navios de carga por ano e centenas de barcos de turistas. De Nova Orleans ainda partem cruzeiros regulares para portos da América Central e Caribe.
4) Inicio da matéria: -"Todo dia é dia, toda hora é hora de jazz e blues em Nova Orleans, Louisiana, uma das portas de entrada dos Estados Unidos. Você vai se encantar com seus clubes de jazz, sua comida Cajun (crioula), suas ostras, camarões e lagostas, seus pratos apimentados, seus coquetéis fortes, sua vida noturna agitada. Você vai amar esta cidade" (Como eu amei e amo).

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Belo Horizonte-MG / Brasil
03 de setembro de 2015
Helio Fraga  Editor

Postagem e edição - Ana Cristina Noce Fraga

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