quarta-feira, 31 de agosto de 2016

OLIMPÍADA LEVANTOU NOSSA AUTOESTIMA E MUDOU A IMAGEM DO BRASIL NO MUNDO

Apoteose no Maracanã, reunindo atletas de 206 nações


A Olimpíada Rio 2016 foi um divisor de águas: ela divide a história do Brasil em antes e depois dela. Ela nos apontou caminhos que não temos o direito de ignorar. Ela nos sinalizou, claramente, rumos para o esporte brasileiro e para todos nós, como nação civilizada - que deixa de ser o país do futuro que teima em não chegar.. Depois das belíssimas festas que fizemos no Maracanã, na abertura  e no encerramento - vistas por bilhões de pessoas nos quatro cantos da Terra -, a imagem do Brasil melhorou muito. O mundo passou a nos respeitar. E isto tem um valor incalculável - pena termos órgãos de Turismo tão incompetentes que não se dão conta disso.

Imagens marcantes da Rio 2016, além das competições: o Cristo Redentor iluminado de verde e amarelo no alto do Corcovado; a confraternização dos atletas internacionais caindo para valer no belo Carnaval de espedida, organizado pela campeoníssima Rosa Magalhães; o cenário da Lago Rodrigo de Freitas nas provas de canoagem; o magnetismo pessoal de Michael Phelps, Usain Bolt e da ginasta americana Simone Biles; as multidões ocupando o Parque Olímpico da Barra da Tijuca e da região revitalizada da Praça Mauá, em destaque a imagem futurista do Museu do Amanhã. Quem podia imaginar uma Olimpíada tão impecável?

Previsões catastrofistas não se confirmaram. A Olimpíada foi uma festa contínua, durante 17 dias, e as maravilhosas imagens do Rio atingiram todos os continentes. As 19 medalhas conquistadas pelo Brasil revelaram novos valores para o esporte e atletas que são modelo para as novas gerações, como o canoísta Isaquias Queiroz. Se o Brasil teve um desempenho pífio na natação, no tênis e em esportes como atletismo, basquete masculino e feminino, hipismo e outros, as medalhas de ouro no salto com vara, futebol, vôlei de praia  e no vôlei masculino nos encheram de alegria. Não haveria cenário  melhor que o Rio - uma cidade que sabe ser festeira e esbanja alegria de viver.


Sem exagero, muito menos patriotada, a primeira medalha olímpica de ouro vai para a torcida brasileira, pela sua empolgação, vibração, entusiasmo  e participação, fazendo festa em todos os ginásios e arenas, apoiando moralmente os atletas, praticamente empurrando-os em cada conquista. A Arena Copacabana, sede do  vôlei de praia, devia continuar existindo e ser incorporada à paisagem da Av. Atlântica, como a mais recente jóia acrescentada à Princesinha do Mar.


A Rio 2016 comprovou, a cada um de nós, que o Brasil pode dar certo, e tem uma trilha luminosa à sua frente - basta que tenha coragem de enfrentar, com o mesmo espírito olímpico, todas as mazelas que nos rodeiam. Mudar radicalmente o país através de nossas pequenas ações individuais diárias - em casa e na rua, no trabalho, no trânsito, no relacionamento com o próximo. Mais tolerância e menos cobranças. Menos radicalismo e divisões partidárias (ódio que destrói). Mais idealismo e civilidade, mais solidariedade, mais respeito à natureza, menos destruição e vandalismo de bens públicos. Ter um trânsito mais humano,  menos carnificina nas estradas, menos abusos ao volante. O Brasil pode ser diferente. Não podemos continuar tão atrasados  em relação a certas nações, porque teimamos em persistir nos erros.

Monumental festa de encerramento, que deixou saudades



A brava gente brasileira que cantou com tanto entusiasmo o Hino Nacional, e celebrou sem excessos tantas vitórias, será capaz de construir uma nação melhor, mais ética e menos egoísta, mais cumpridora das leis e menos adepta do famigerado jeitinho, querendo levar vantagem em tudo. Merecemos uma classe política mais decente e menos corrupta, e mais esclarecida também. 

Ao fazer este prometido balanço da Olimpíada, sem exagerar nos elogios aos vitoriosos e sem menosprezar e pisar nos derrotados, o que me move é a esperança de dias melhores não só para o Esporte, mas para o país todo. Meu sonho, como avô de 3 netinhos, é tentar contribuir para deixar uma nação melhor para todas as nossas crianças. Não desperdiçar cada dia de vida que me resta.



   O QUE PODEMOS APROVEITAR DESTA OLIMPÍADA


As imagens dos shows das Olimpíadas chegaram aos quatro cantos da Terra



A Rio 2016 nos comprovou que é preciso investir com seriedade no Esporte, não através de bolsas e subsídios a atletas, ou de patrocínios da Caixa aos clubes de futebol,  mas de ações concretas em formação profissional. Apenas um exemplo: o futebol feminino  jamais vai se desenvolver e atingir os níveis dos EUA, Canadá, Alemanha e Suécia se não começar a ser praticado nos colégios e escolas fundamentais, e se não houverem competições intercolegiais, torneios e campeonatos amadores. Todos os clubes que disputam as séries A e B do Brasileirão devem ser obrigados a implantar o futebol feminino e organizar campeonatos do tipo sub-20. Depois virão os torneios interestaduais e nacionais.

Foi uma surpresa ver tantos atletas premiados batendo continência, sinal de que estão vinculados ao Exército. Nada contra. A preparação de mais atletas, em outras modalidades esportivas, deve ser estimulada e aprimorada: tiro ao alvo, remo, canoagem, atletismo, natação, hipismo, tênis, boxe, judô, taekwondo etc.

Assim como o vôlei masculino e feminino, e vôlei de praia, o handebol feminino e masculino devem ser estimulados, disputando-se torneios entre clubes e campeonatos nos Estados. Claro que podemos ter um Brasileirão de handebol, assim como temos no futsal.

O Cristo Redentor iluminado de verde e amarelo no alto do Corcovado



Não tenho ilusões e não espero nada do Ministério do Esporte, nem das Secretarias Estaduais e Municipais de Esportes - sempre entregues como prêmio de consolação a derrotados nas urnas. O que se pede a estas organizações, especializadas em empreguismo e esbanjamento de verbas, é aquilo de sempre: se não podem ajudar, que pelo menos não atrapalhem.


É indispensável que governos estaduais e prefeituras construam e equipem mais praças de esportes, com piscinas e quadras decentes, que se transformem em centros de preparação de futuros atletas. O país do futebol  (nem tanto, hoje em dia) pode ser um celeiro de nadadores, ginastas, tenistas, remadores, atletas, boxeadores, judocas, halterofilistas, maratonistas etc.

A Bandeira do Brasil em destaque nas maiores celebrações



Os colégios deviam ter atitudes mais proativas, promovendo torneios regulares de tênis de mesa, futebol de salão, vôlei, peteca,  natação etc. As burocráticas aulas de ginástica devem ser levadas mais a sério. Precisamos ensinar às nossas crianças a encarar o esporte como importante instrumento de formação de sua personalidade e caráter: dedicar-se mais; treinar com seriedade; respeitar o adversário; jamais utilizar meios ilícitos (os fins não justificam os meios). E pede-se aos pais mais serenidade e menos exagero: saber aceitar a derrota do filho como normal, não é nenhuma tragédia ou vergonha familiar.



ESPERAVA-SE MUITO MAIS DA NATAÇÃO MINEIRA


Dentro desse balanço geral da Olimpíada, há que se colocar um dedo da ferida ao analisar a decepcionante participação da natação brasileira, no geral, e da mineira, especificamente. Esperava-se muito mais dela. Eu, pelo menos, acreditava em 3 ou 4 medalhas, considerando-se o gabarito dos concorrentes, apesar da superioridade técnica (incontestável) de norte-americanos, japoneses,chineses e agora os britânicos - que são uma realidade como nova potência olímpica.



Talvez tenhamos ficado mal acostumados com Gustavo Borges, Cesar Cielo e Thiago Pereira. Como mineiro de coração, sócio do Minas T.C. e frequentador diário do Minas II, e conhecendo o Minas há mais de 50 anos, eu confiava muito em medalhas. As decepções foram se sucedendo, a galope. A dura verdade dos fatos (sempre ela norteando tudo), impõe que se citem nomes e exemplos:


1) Thiago Pereira em 7º lugar nos 200m medley, depois de virar em segundo lugar no começo da prova, mas reduzindo o rítmo  nos 50m finais. Esperava-se dele  prata ou bronze, apesar de Phelps na mesma prova. dono antecipado de mais uma medalha de ouro.


2) Nicolas de Oliveira: quatro decepções seguidas (continuo considerando que é um nadador de futuro para Tóquio 2000): 14º no revezamento 4x200 livre; 5º lugar nos 4x100 livre; 28º colocado nos 100m livre; e desqualficado nos 200m livre.


3) Miguel Valente, também de BH: podia ficar pelo menos entre os 8 primeiros, mas foi 31º colocado nos  1.500m livre, prova realmente longa, difícil e desgastante - para ele e os demais.


4) Esperava mais também de Italo Manzine, 13º lugar nos 50m livre, e Jéssica Cavalheiro, 11º lugar no revezamento 4 x 200 livre.


5) Outra expectativa frustrada, apesar do talento de Larissa Oliveira, de Juiz de Fora: 11º lugar no revezamento 4 x 100m livre; 21ª posição nos 100m livre; 21º lugar nos 100m livre e 13ª colocada nos 4x100 medley. 


Talvez tenha pesado muito, para todos eles, a grande responsabilidade e expectativa pesando sobre seus ombros, por serem muitos jovens. O que ocorreu na Rio 2016 é uma preciosa lição para o futuro. Seus técnicos precisam discutir isso honestamente com eles. Vida que segue. Começar a pensar em Tóquio 2020. Não esmorecer.

  OS PONTOS ALTOS NA CAMPANHA DO BRASIL 


Foi a Olimpíada de Michael Phelps, de Usain Bolt e da ginasta norte-americana  Simone Biles. Esta moça tem um futuro tão brilhante que muitos acreditam que ela  vai ganhar 10 medalhas de ouro nas futuras Olimpíadas de 2020 em Tóquio e seja onde for  em 2024.

Michael Phelps voltou aos EUA encantado com os brasileiros



Mas, para nós, foi também a Olimpíada de  Thiago Braz no atletismo (salto com vara), de Isaquias Queiroz na canoagem (3 medalhas incríveis para um completo desconhecido), de Robson Conceição no boxe, de Felipe Wu no tiro, de Rafaela Silva no judô (lavou sua alma), do mineiro Maicon Andrade no taekwondo, de Martine Grael e Kehena Kunze no iatismo (classe 49er FX) e dos ginastas Arthur Nory, Diego Hypolito, Arthur Zanetti, Flávia Saraiva, Rebeca Andrade, Lorrane Oliveira, Francisco Barreto e Sérgio Sasaki. Não é preciso ter bola de cristal para prever um fulminante sucesso de Arthur Nory na televisão. cinema e publicidade. É o novo ídolo da juventude brasileira.

Usain Bolt levou três medalhas de ouro para a Jamaica


 A maior de todas as conquistas brasileiras foi no vôlei masculino, recuperando um time derrotado antes pela Itália e EUA, e quase eliminado pela França. Depois que passou pelos franceses, o Brasil se agigantou e eliminou Argentina e Rússia,  derrotando a Itália na final - não por previsíveis 3 a 2, mas por categóricos 3 a 0, em partida dificílima. Maior jogador de vôlei da Olimpíada: Wallace, número 4 do Brasil. Teve um desempenho extraordinário, pena que nenhum narrador da TV tenha se lembrado de contar que ele joga no Sada Cruzeiro, de  Minas.


Bernardinho, com seu comando firme, tirou de cada jogador o melhor que podia dar - casos do líbero Serginho (decisivo em todos os lances e um exemplo de fibra e dedicação), Lipe, Bruninho, Lucão, Lucarelli, William, Maurício Souza e outros medalhistas de ouro. Serginho teve um final de carreira glorioso.

No vôlei feminino, prevaleceu o espírito de superação e comprometimento de Natália, Sheila, Fabiana, Gabi, Dani Lins, Thaísa e Jackie. Tinha tudo para ganhar a medalha de ouro, mas a equipe da China foi nitidamente superior na final. Pena que não veio nem uma medalha de bronze, para consolar. 


No vôlei de praia, o Brasil se emocionou com a raça de Alison Mamute e Bruno Schmidt, derrubando todos os adversários. Deram exemplo de seriedade, cabeça fria e dedicação. O ouro veio debaixo de chuva. no confronto com os italianos Paolo Nicolai e Daniele Lupo, ganhando por 21 a 19 e 21 a 17. Em outras duplas, pode ter faltado esse esforço adicional e mais garra nos momentos decisivos. Pareciam achar que os jogos estavam ganhos, mas se esqueceram de informar aos adversários.


No futebol masculino, o time da CBF começou mal, depois se equilibrou e jogou mais sério. Tinha os melhores jogadores e não fez mais do que sua obrigação - a medalha de ouro até veio tarde. Neymar fez um belo gol de falta e bateu com classe o pênalti decisivo, nos 5 a 4 contra a Alemanha.


No futebol feminino, a equipe encantou a torcida mais pelo espírito de luta de Marta e suas colegas. Mas elas se mostraram desatentas na defesa, marcaram mal, finalizaram pessimamente a gol (chutes fracos) , e correram desordenadamente. Na decisão do bronze contra o Canadá, que venceu por 2 a 1, a equipe do Brasil pareceu desgastada fisicamente e estropiada psicologicamente.


Tentei ver o máximo possível da Olimpíada. Claro que me emocionei com a humildade e simplicidade de Isaquias Queiroz, 22 anos, baiano de Ubaituba, ganhado de 3 medalhas na canoagem. Vibrei também com a medalha de ouro de Martine Grael e Kahene Kunze na vela, ambas com ótimo DNA paterno.

OS EUA deram o esperado show de bola no basquete, sempre sobrando na quadra, mas tiveram finais difíceis contra a Sérvia no masculino e Espanha no feminino. A Sérvia, nos esportes coletivos, foi o destaque da Europa do Leste. Esperava-se mais da Polônia, Hungria e República Tcheca. A Rússia veio desfigurada, abalada pelo escândalo do dópping patrocinado pelo governo de Putin.

Simone Biles, estrela absoluta da ginástica feminina.


Terminada a Olimpíada, uma sensação de vazio invadiu a gente. Ficaram imagens inesquecíveis, que vão nos acompanhar pelo resto da vida. O mundo viu o que o Brasil é capaz de realizar. Sabemos fazer bem feito, demos conta, cumprimos nossas obrigações, nos superamos e nos excedemos em vários aspectos - mesmo num momento tão adverso, atolados em dívidas e  mergulhados na maior crise institucional, política, econômica e social de nossa história.

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Belo Horizonte/MG - Brasil
30 de agosto de 2016
Editor - Hélio Fraga
Postagem e edição - Ana Cristina Noce Fraga

(E-mail: hfraga.rmj@gmail.com)


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