domingo, 6 de agosto de 2017

CIDADÃO ANÔNIMO MOSTROU RESPEITO PELA MEMÓRIA DE ARTUR DE ALMEIDA





Já se podia prever, antes da chegada do corpo do jornalista Artur de Almeida, vindo de Lisboa - onde morreu aos 57 anos, repentinamente, em 24 de julho, vítima de uma parada cardiorrespiratória - que ele não teria um funeral comum no Cemitério Parque da Colina. Até comentei com seus pais, Guy de Almeida e Clélia, que ele seria tratado como celebridade, ainda que sendo uma pessoa tão modesta e comum, sem nenhum tipo de pretensão de ser maior, melhor ou diferente. Artur, tão brilhante e competente, sempre fez questão de não exigir reverências, honrarias e homenagens. Por isso, era tão diferente dessas "celebridades" vazias exibicionistas, bobas e idiotas que a TV brasileira gera continuamente, em escala crescente.



Comentei, na visita aos pais, no bairro Anchieta, que ele seria tratado como um famoso cantor de rock, um galã de novela ou jogador titular do Atlético (time do seu coração) com várias faixas e bandeiras junto ao seu corpo.Mas tudo aquilo que o Memorial da Colina viveu na quinta-feira, 3 de agosto, mostrou a verdade dos fatos: Artur tinha a admiração e o respeito das pessoas que o recebiam em sua casa, por 45 minutos, durante o MG-TV 1ª Edição, na hora do almoço, antes do Globo Esporte, na maior emissora do país. Ele, ao lado de Isabela Scalabrini, com quem formou uma Dupla de Ouro, eram companheiros de milhares de famílias, de todos os estratos sociais.



Eram aceitos como "de casa" e parte das famílias delas. Companheiros dos idosos que vivem sós, dos internos em hospitais, dos desgarrados da sorte.



Assim, em vez dos exageros normais dos fãs de cantores e atrizes, capazes de encenar desmaios diante dos caixões de seus ídolos, Artur mereceu a reverência e a silenciosa homenagem de seus admiradores, alguns descalços.
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Alguns pegaram 2 ou 3 ônibus para chegar ao Parque da Colina, vindos de muito longe. Estavam horas sem alimentação, mas enfrentaram todas as dificuldades para chegar perto do seu ídolo e olhar rapidamente (sem direito a uma paradinha) aquele rosto sereno debaixo do vidro quadrado da urna  vinda de Lisboa - como carga comum no compartimento de bagagens de um jato da TAP Portugal. Um desrespeito ao cidadão e ser humano Artur de Almeida. Seu irmão Guilherme veio na cabine normal de passageiros. Ele e os outros irmãos homens (Arnaldo e Guy Afonso) improvisaram para Artur uma pequena homenagem no Terminal de Cargas do Aeroporto de Confins, antes de a van da Funerária contratada levar o corpo.



O sepultamento foi dividido em duas etapas: uma, mais íntima, de oito às onze horas; e outra, pública, de onze às quatro da tarde. Por sorte da família, não apareceram políticos ladrões, administradores desonestos nem personagens que frequentam inquéritos e páginas
policiais. Parece que muitos exibicionistas de velórios "importantes"  se cuidaram e acharam
que sua presença podia constranger o auditório. Ali estavam amigos da família, colegas de profissão, vizinhos de Artur e Sara nos condomínios Casa Branca, Retiro das Pedras e bairro Buritis; veteranos da Imprensa mineira, como Hélio Caetano da Fonseca. aos 91 anos, ex-diretor da Imprensa Oficial. Estavam também jornalistas como José Maria Rabelo, Luiz Carlos Costa, Luiz Fernando Perez, Ivan Drummond, Eduardo Costa, Emerson de Almeida, Lélio Fabiano dos Santos, Ponce de León (do extinto "Binômio") e tantos representantes de várias Redações.



O carmelita Frei Cláudio van Balen (Paróquia do Carmo), a pedido da família, compareceu às 9h30, na parte reservada aos pais e parentes, e preparou um de seus textos maravilhosos comparando morte e vida na perspectiva cristã (ver abaixo). Guy e Clélia assistem à missa de Frei Cláudio, todos os domingos, às onze da manhã,na Igreja da Rua Grão Mogol 502.E os amigos da família já ficaram sabendo que a memória de Artur e seu legado de cidadão exemplar seriam os temas dominantes da homilia do domingo, dia 6 - como aconteceu. numa igreja lotada.



         O APOIO MORAL DE TANTOS AMIGOS





Reconfortada pela presença de tantas pessoas, e o comparecimento desses milhares de mineiros comuns das periferias, a família Bacha de Almeida aguentou firme o longo velório, já esgotada e traumatizada pela longa espera de nove dias pela chegada do corpo de Artur.

Todos ficavam impressionados com sua serenidade. Guy, que recorre à ajuda de uma bengala, ficou sentado na maior parte do tempo, no salão anexo ao lugar onde o corpo foi exposto.



As coroas de flores (contei mais de 35) ficaram expostas nos salões e depois, por falta de espaço, foram colocadas sobre a grama ressecada no acesso à porta principal do Memorial da Colina, ou Crematório. Ficaram enfileiradas e, para o sepultamento, foram levadas junto ao corpo.

Porque tinha de conduzir Frei Cláudio à Igreja do Camo, sai da Colina ao meio-dia, para não voltar, e só vim saber depois, na primorosa cobertura do MG-TV, 2ª Edição, que a Rede Globo andou seu Coral para uma audição especial em honra de Artur. E o arcebispo de BH, dom Walmor, fez as orações finais.



Num exemplo admirável, consolando em vez de serem consolados, Guy de Almeida e Clélia Bacha de Almeida (com mais de 62 anos de casados) foram apoiados pelos quatro filhos tão unidos e amigos (Beatriz, Arnaldo, Guilherme e Guy Afonso): pela viúva de Artur, educadora Sara Mourão Monteiro,  com mestrado e doutorado em Pedagogia pela UFMG, muito tranquila e conformada ao lado das 3 lindas filhas (Amanda, Paula e Iarinha, 16 anos, como o pai a chamava; José Artur, irmão de Guy, aposentado da Imprensa Oficial, com esposa e a filha Manuela; e outros membros dos clãs Nogueira, Almeida Gonçalves, e Lisboa Bacha, sempre solidários. Outras heranças de Artur: a solidariedade e a fraternidade.



Diante da cobertura mínima ou inexistente da imprensa escrita local, seria pretensão minha, ou perda de tempo, tentar saber a quadra e o número da sepultura que abriga os restos mortais de Artur. A gente encontrava isso nos jornais do passado, que tinham equipes melhores e mais preparadas.




FREI CLÁUDIO E SUAS PALAVRAS QUE CONFORTAM






O holandês Frei Cláudio, mais de 50 anos em Belo Horizonte



-"Que pena que a cerimônia não foi toda gravada, porque ia ficar registrada na história" - assim falavam muitas pessoas, no Memorial da Colina, depois que Frei Cláudio van Balen encerrou suas palavras de apoio moral e conforto à família de Artur de Almeida e seus amigos. Por um descuido até comprensível,  a Globo não gravou as imagens.

Foi realmente emocionante. Os presentes acompanharam, em voz alta, o texto que ele distribuiu. O frei carmelita lamentou não ter levado mais de 100 cópias e disse: - "Nunca vi tanta gente num velório".



Disse o respeitado frei holandês, há mais de 50 anos vivendo e trabalhando em Belo horizonte e assíduo frequantador de favelas próximas, que ele não chama de aglomerados ou comunidades:



- "Por Jesus, primogênito em sua passagem pela morte, Deus nos declara donos da vida eterna. É pela doação que tomamos posse desta vida. Assim como a família de Artur de Almeida, agora, muito dos nossos já passaram por esta experiência. Enxuguemos as lágrimas. Louvo a Deus, a solidariedade enriquece. A vida é vitoriosa para sempre".



Outro trecho:



- "Parabéns para Artur e sua família. Ele participa da plenitude da vida. Louvado seja Deus, consolo para sua esposa Sara e suas três filhas, que tanto ajudaram Artur. Nossa gratidão e de todos que conviveram e trabalharam com ele; e de inúmeros que foram ajudados pelos serviços que ele lhes prestou; a seus pais, esposa e filhas, de seus irmãos e de tantos que, por Artur, se sentiram beneficiados e enriquecidos por sua presença, trabalho e amizade. Artur de Almeida foi e continua sendo dádiva de Deus - hoje e sempre, amém".



E Frei Cládio finalizou:

-_"Com Artur, acolhido junto a Deus, damos gloria. Com  Artur, louvamos e agradecemos. É justo e louvável darmos graças a Deus, semente da ressurreição. Este nosso irmão Artur, bendito, já colheu a vitória da vida sobre a morte".



O pai Guy, a mãe Clélia e toda a família, agradeceram muito a presença de Frei Cláudio, que se esforçou para superar um problema de saúde e participar do adeus a Artur. Ele não podia permanecer na Colina por ter outros compromissos. Igreja, para ele, é ação e serviço aos irmãos (não é rezar terço nem fazer novenas).




      MEU AMIGO FIEL, POR MAIS DE 52 ANOS





O menino Artur Nogueira de Almeida Gonçalves tinha apenas 5 anos quando o conheci, e brincamos de carrinho  na casa dos pais - Rua São Romão 343, alto do bairro Santo Antônio. 

Com Guy, entrei para o jornalismo em dezembro de  1959, no antigo "Diário de Minas".
.Não havia Faculdades de Comunicação na época, então cursei Direito na UFMG de 1960 a 1965. Guy foi meu primeiro e melhor chefe.

Me ensinou a não ter medo dos poderosos, e defender e ajudar os fracos e humildes. Me fez um cidadão melhor e mais comprometido com a verdade dos fatos. E o leitor do jornal era meu verdadeiro patrão - portanto, a ele meu respeito e dedicação. -"Fazer o meu melhor", como dizem hoje os jogadores depois de tantos gols perdidos e pênaltis mal batidos.



Mas aquela vida boa e tranquila, sempre perto de Guy, Cléia  e os filhos, acabou de repente e nos separou, porque meu chefe de Redação, por razões políticas, foi preso pelos militares do movimento de 1964, foi arrancado da família e levado para Neves, e mais tarde abrigado como exilado político no Consulado do Chile, no Rio, à espera da partida para Santiago. Foram onze anos fora do Brasil.



Artur foi o terceiro dos irmãos - depois de Beatriz e Arnaldo, e antes de Guilherme e Guy Afonso, chamado de Guyzinho desde a infância, O exílio da família Almeida foi dividido entre o Chile e o Peru, morando primeiro numa casa modesta, cheia de rosas, na Calle Rodolfo Lenz, em Santiago,e depois em Los Cipreses, em Lima, no Peru.

Guy foi levado ao Chile em 8 de maio de 1966, dez dias antes de Artur completar 6 anos.

Clélia e os 5 filhos embarcaram para Santiago em 18 de dezembro de 1966, e Artur completou 7 anos em 18 de maio de 1967. Ele e os irmãos estudaram em escolas públicas, sempre com notas ótimas.



Por carta, fui acompanhando o crescimento dos  meninos em Santiago. Em janeiro de 1968, ao comemorar 1 ano de casamento com Ana Maria, na Igreja de Santo Agostinho - quando Guy e Clélia, exilados, não puderam vir nem assinar a certidão de casamento - decidimos ir a Santiago para rever a família, e Guy foi nos esperar no antigo Aeroporto Pudahuel, acompanhado de Arnaldo e Artur.

Ficamos 3 dias na casa deles,abarrotada com os 5 filhos e a sogra, dona Maria. A bem da verdade, sem ter casa própria e pagando aluguel caro na Rua Ceará 2044, ap. 22, Ana Maria e eu fizemos o maior sacrifício para pagar os bilhetes aéreos da Varig. Voltamos via Buenos Aires, praticamente de bolsos vazios mas felizes com o reencontro. Vê-los bem no Chile foi um consolo.



A derrubada de Allende pelas tropas de Pinochet no Chile apressou a partida dos brasileiros exilados, como Guy, Antonio Romanelli, Edmur Fonseca, Vicente Abreu e José Maria Rabello. Guy teve de abandonar seu emprego numa agência internacional de notícias (Inter Press Service) e retomou as atividades em Lima, onde ficou até fevereiro de 1977.



A última lembrança dos meninos em Lima, já crescidos, foi a vitória do Cruzeiro (4 a 0 ) sobre o Alianza, pela Copa Libertadores de 1976, jogo memorável visto por Guy e os filhos. Mais tarde, Guy passou no hotel, com Guilherme  e Artur, porque eu tinha de levar um papel ao Aeroporto Jorge Chávez e entregar a Roberto Batata, antes da partida para BH. Era uma carta de amor escrita por uma favelada de nome Teresa - carta que ganhou repercussão maior em minha coluna esportiva na época, no "Estado de Minas", pois Roberto Batata morreu num acidente perto de Santo Antônio do Amparo, em trecho perigoso da BR-381, Fernão Dias. Ia correndo demais, para rever sua esposa Denise em Três Corações. O capotamento do Chevette emocionou os cruzeirenses.



Essa convivência com os Almeidas se prolongou por vários anos, e claro que fiquei muito feliz quando Artur escolheu o jornalismo, pelo seu privilegiado DNA, que acabou contagiando também Amanda, sua primeira filha, hoje trabalhando no jornal "O Globo",depois de brilhar no "Correio Braziliense" do Distrito Federal. E o marido de Amanda também é jornalista, Fábio Fabbrini, do "Estadão de SP" no DF. Quando nascer o primeiro neto ou neta de Artur e Sara, certamente terá a mesma profissão dos avós e pais.



Figuras como Guy e Artur enobrecem uma Imprensa de MG  às vezes tão denegrida, tão desonrada, tão vilipendiada. Falei baixinho no ouvido de Artur, olhando fixamente seu rosto por debaixo do vidro na urna:

-"Valeu, amigo. Que pena que não pude me despedir direito de você, dia 21 de abril, no encontro pelos meus  80 anos no Minas II. Seus colegas de mesa, junto de Sara e de seus pais, foram Eduardo Aquino e Adriana,e Luís Otávio Pires com a Lu. Todos ficaram cativados com sua simplicidade e.papo agradável. Pediram que desse um abraço à Sara e suas filhas na Colina e a seus pais.



Está dado. Do Hélio, seu amigo para sempre.



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Belo Horizonte/MG - Brasil
Dia 6 de agosto de 2017
Editor- Hélio Fraga
Postagem e edição - Ana Cristina Noce Fraga



(E-mail: hfraga.rmj@ gmail.com)

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