sexta-feira, 30 de março de 2018

A TRADIÇÃO DA SEMANA SANTA NAS CIDADES HISTÓRICAS DE MINAS




Estamos envolvidos num vendaval de transformações e perplexidades, tudo a um só tempo: um Brasil dividido pelo ódio e intransigência na política, e radicalismo quase doentio, num ambiente contaminado pela corrupção endêmica, crise institucional, demorada recuperação econômica, partidos políticos desmoralizados, instituições frágeis, Poder Judiciário à beira da desmoralização e a população frustrada, enojada de tanta podridão. Nessas circunstâncias, fica difícil falar de religiosidade, desarmamento dos espíritos e fazer timidamente uma chamada geral à reconciliação, à fraternidade e ao perdão quando parecemos estar ameaçados de um confronto que pode terminar em radicalismo maior e incontornável, com uma luta fratricida.

Durante quase 20 anos como criador e editor do extinto Caderno de Turismo do jornal "Hoje em Dia", em Belo Horizonte, eu me esforcei ao máximo para respeitar, preservar e valorizar  a tradição da Semana Santa nas cidades históricas de Minas. Foi uma  luta inglória, pois estive praticamente sozinho diante da indiferença (e até má vontade) da maioria das cidades que compõem o chamado Ciclo do Ouro do barroco mineiro. As tais Secretarias Municipais de Turismo nunca ajudaram, permaneceram omissas, como se nada tivessem a ver com a divulgação da festa e o calendário das celebrações litúrgicas, sermões e procissões.

Eu até evitava visitar uma dessas cidades,como anônimo turista, pois passava lá menos de 4 horas,e voltava a BH horrorizado com tanta incompetência, desorganização  e amadorismo. Não falo da falta de estacionamentos, exploração dos hotéis, excesso de falsos guias de turismo, bagunça geral no trânsito, falta de fiscais, carência  de placas indicativas nas ruas e igrejas e estrutura a mais precária possível. Houve uma vez em que, num restaurante self-service de Ouro Preto, tive de ajudar (anonimamente) os garçons a identificarem, para turistas alemães,o que era carne de boi, porco e frango. Claro que não havia nenhuma plaquinha em inglês. 




Pode-se imaginar, erroneamente, que  Semana Santa vende sozinha, não carece de qualquer tipo de marketing ou divulgação. Já existe um  interesse natural de quem vem, mesmo enfrentando  a desmoralizada malha rodoviária de Minas, que dispensa apresentações: é a pior de todas no Brasil.Os prefeitos ignorantes podem até pensar que é até melhor não vir turista nenhum, pois as cidades vão ficar superlotadas, com cheiro de xixi e será  um verdadeiro caos. Eles deviam pensar que cada visitante gera empregos e traz renda para o município. Merece ter bom serviço.As prefeituras não fazem mais do que sua obrigação: têm de estar sempre bem praparadas..

A primeira obrigação é do governo de Minas, em minúsculo mesmo. Não é possível imaginar que, no acesso a Congonhas do Campo,Ouro Preto, Mariana, Caeté, São João del-Rei, Serro e Diamantina, os visitantes de outros Estados vão encontrar os mesmos buracos do ano passado na Rodovia dos Inconfidentes; viadutos e pontes com proteção lateral danificada;faixas duplas centrais não demarcadas; e placas de sinalização enferrujadas pelas queimadas ou tortas e ilegíveis. Como imaginar uma cidade histórica suja e mal cuidada,toda pichada,despoliciada, entregue a baderneiros; que estejam fedendo a urina e cocô? e com veículos pesados dominando o trânsito em ruas centrais estreitas e íngremes?

Portanto, me desculpem mas desta vez  não vamos falar de Domingo de Ramos, Procissão do Encontro, Sermão das Sete Palavras, Via Sacra, morte de Cristo na cruz entre dois ladrões, Procissão do Senhor Morto, Sábado de Aleluia e triunfal Ressurreição. A Semana Santa anda um tanto desvirtuada. Diante dessa explosão de consumo, e glorificação de um ovo grande de chocolate  como símbolo e síntese da Semana Santa, nós - avós, pais e educadores - temos de enfrentar essa aberração e inversão de valores. A Páscoa verdadeira não pode ser confundida com ovos da Ferrero Rocher, Kopenhagen, Lacta, Kinder, Garoto e Nestlé - senão, nossas crianças vão pensar que os 12 apóstolos estavam esperando Jesus Cristo na porta do túmulo com uma bandeja de ovos de chocolate. 


        PRECISAMOS TER MUSEUS DA SEMANA SANTA

As principais cidades históricas mineiras deviam ter em destaque, na praça central, um Museu da Semana Santa, com filmes e vídeos mostrando aos visitantes (ingresso a preço simbólico)  a beleza de suas comemorações  religiosas na chamada Semana Maior. E o grande destaque da mostra devia ser a imagem dos tapetes de serragem colorida decorando as ruas para a solene Procissão da Ressurreição. Por que alguns prefeitos,que se julgam intelectuais,e sintonizados com os instrumentos modernos da indústria da comunicação,não pensaram nisso ainda?

O Museu da Semana Santa pode atrair milhares de visitantes por ano. Nunca será um desperdício de verba. Relendo um Caderno de Turismo antigo, com data de 15 de março de 2012, numa página mostrando como a Semana Santa de Minas  podia ser perpetuada pelas imagens fortes da televisão,e não pelas páginas coloridas de jornais, que acabam ficando amareladas pelo tempo, vejam o que escrevi:
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"Assim como ficam registradas em vídeos e som as imagens dos desfiles de cada Carnaval no Sambódromo do Rio, como uma forma de preservar sua memória, também é indispensável que se guardem para a posteridade as imagens desses tapetes de serragem, construídos carinhosamente por mãos anônimas, na madrugada de sábado para o Domingo da Ressurreição - como nas ruas centrais de Ouro Preto, antes do início da Procissão. Obra da comunidade, com desenhos criativos, misturando anjos, flores e figuras bíblicas. Isso merece ser perpetuado.

As gravações podem ser feitas de madrugada, porque pouco ou nada restará desses tapetes depois de pisados por centenas de pés. Espera-se que prefeitos inteligentes e defensores da preservação da cultura local e da memória histórica da Semana Santa tratem de corrigir esta falha.Dezenas de oportunidades já foram desperdiçadas. Claro que um museu pode ter incentivos culturais e um patrocinador.

Fala-se tanto em modernidade das comunicações e na força dos instrumentos de marketing e promoção, mas parece que nós insistimos em andar na contramão. Ainda não tratamos a Semana Santa,verdadeiramente, como uma das imagens definitivas das cidades históricas de Minas - muito mais importantes do que desfile de Carnaval e criatividade dos  blocos caricatos, concursos de miss, exposições agropecuárias, festivais de musica axé, entrega de medalhas na Praça Tiradentes e solenidades e eventos municipais. Espero que o Ciclo do Ouro em Minas desperte para esta realidade.

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Meus votos de feliz e santa Páscoa para todos, Uma Páscoa que signifique aceitação, perdão e transformação;  final de hostilidades e  desarmamento de espíritos; menos intolerância; mais respeito às diferenças; menos machismo doentio e um tratamento  nota 10 para todas as mulheres - brancas, pretas, amarelas, mulatas e índias. Justiça exemplar, e rápida, para todos os culpados da Lava Jato. Rezemos por uma paz duradoura e convivência fraterna entre todos os brasileiros. E nenhum voto para bandidos e desonestos, ou manipuladores dos bons sentimentos do povão, nas eleições de 7 de outubro.  

Precisamos, juntos, mudar este Brasil. Talvez seja nossa última chance. Temos de rechaçar qualquer tentativa de nos transformar numa Venezuela.

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Belo Horizonte-MG/Brasil
Quinta-feira Santa, 29 de março de 2018
Editor - Hélio Fraga
Postagem e edição - Ana Cristina Noce Fraga

(Email: hfraga.rmj@gmail.com)

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