quinta-feira, 9 de agosto de 2018

PARA O MEU FILHO LUIZ OTÁVIO, ESTE TRI MUNDIAL NO MÉXICO 70

A Taça Jules Rimet

Esta foi a íntegra da minha crônica publicada pelo jornal Estado de Minas, em Belo Horizonte-MG, com a data da final da Copa do Mundo de 1970 - Brasil 4 x 1 Itália, no Estádio Azteca, da Cidade do México, no dia 21 de junho. Esta foi a segunda Copa que eu cobri,desta vez como Editor Geral dos Diários e Emissoras Associados de Minas Gerais - cobertura para 34 jornais do grupo,23 emissoras de rádio e 14 estações de TV (Rede Tupi). O comando da equipe de 25 profissionais foi de José de Oliveira Vaz, diretor  da TV Itacolomy, canal 4, e TV Alterosa, canal 2, em MG. Luiz Otávio, meu 1º filho,havia nascido em 5 de fevereiro deste ano, no Hospital São Lucas, na capital de Minas.
Tri, tri, tri - a torcida brasileira festeja no Estádio Azteca, da Cidade do México
-"Luiz Otávio, meu filho:

Você nem completou cinco meses ainda, e parece um predestinado. Nasceu em 1970, o ano do tri. Não ganhou ainda sua primeira bola, e os reis do futebol já conquistaram para você e o Brasil o maior troféu do futebol mundial para o Brasil.

Você deve ter acordado assustado com o barulho de foguetes que vinha da rua, da gente em festa, do povo feliz que celebra a conquista imortal, tão esperada por 90 milhões de brasileiros em ação. O tricampeonato mundial  que o Brasil ganhou com toda a honra, todo merecimento, toda a dignidade e toda a consciência  coletiva que um time pode ter.

O ano do tri vai marcar sua vida. Foi no México 70 que o Brasil teve a consagração definitiva do seu futebol no plano mundial. Destruiu tabus. Varreu lendas e superstições, Não empatou nos seu segundo jogo na Copa.
Marcou o primeiro gol da decisão e, ainda assim, não perdeu o título, como as outras seleções que marcaram primeiro e perderam as últimas cinco Copas. 

O Brasil foi um furacão que liquidou todos os azares. catimbas e manobras. Aqui está o campeão mais digno de toda a história de 40  Taças Jules Rimet. O Brasil liquidou a fria técnica da Tchecoslováquia, a prepotência da Inglaterra,os impulsos latinos da Romênia, as jovens feras do Peru, a irritante maldade do Uruguai nas semifinais e, para completar, liquidou também a forte Itália e suas pernas de ouro. Ganhou sempre com sobras.

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O México está em festa, meu filho.Os mexicanos ganharam a Copa conosco. Nunca faltaram ao Brasil com seu entusiasmo e solidariedade nas cinco vitórias em Guadalajara. Há chuvas que são maldição e outras que são bênção da natureza. Esta chuvarada que caiu sobre a Cidade do México, durante toda a tarde e noite de hoje, veio regar como uma bênção não apenas a grama verdinha que há pouco glorificou os campeões definitivos da Copa,mas também as bandeiras  e a festa da torcida nas ruas - como regou, há quatro dias, no Estádio El Jalisco, de Guadalajara,  a nossa heróica vingança contra o Uruguai. Vitória de 3 a 1 na semifinal, mas podia ser de 5 ou 6.

Campeão admirável - o Brasil.Um time com alma e coração.Com brio e decência. Com jogadores disciplinados e decentes,com espírito de luta - como Jairzinho,Rivelino,Clodoaldo, Brito, Wilson Piazza, o  capitão Carlos Alberto, Everaldo, Fontana e Gérson Nunes; como Pelé, que sacrificou sua glória pessoal e se tornou modesto abridor de defesas,ou como Tostão,cujos pais - seu Osvaldo e dona Osvaldina- acabam de assistir à sua maior tarde de glória aqui no Estádio Azteca.

      *  *  * 

Filho, quando crescer você saberá, no futuro, o valor deste time fabuloso que ganhou esta Copa. Que capacidade! Que soma de talentos! Que valentia! Numa época de tantos ferrolhos e retrancas, o Brasil ganhou a taça e salvou o que estava ameaçado no futebol: a graça e o gosto pelo gol; a beleza e a espontaneidade; a criatividade e encanto dos dribles; aquela ginga que desconcerta. Os europeus vão ter de aprender que não adianta marcar Pelé, Jairzinho, Rivelino, Gérson e Tostão. Eles parecem monopolizar a bola.

Acabou  a Copa dos 95 gols, contra os 89 de quatro anos atrás, na decisão em Wembley, Inglaterra. O Brasil tem o ataque mais positivo. Bastou que não houvesse violência para o Brasil jogar o fino do futebol, como dizia Mestre Didi.A partida mais fácil foi esta final,quando o Brasil não rendeu 50 por cento do que pode e sabe.Se jogasse tudo, ia humilhar a Itália, a quem faltou, na hora decisiva,o que sobrou em nós: o espírito de luta somado ao talento.


O Brasil sai daqui engrandecido. Foi prejudicado por dois juízes e não protestou. Sofreu faltas violentas e não revidou. Foi insultado e não reagiu. A Taça Jules Rimet ficou com o país que mais a mereceu, mais lutou por ela (posse permanente na terceira conquista). O Brasil a levou com sobras de talento.

Aí está a taça, meu filho, nas mãos dos campeões que voltam. Para o Brasil, as conquistas no futebol significam estabilidade politica, tranquilidade financeira e paz social. Apesar de tantas divisões e esse tremendo fosso social que tende a aumentar, .as Copas ainda nos unem e nos irmanam. Pena que sejam usadas politicamente. Não é obrigatória a passagem dos campeões mundiais por Brasília.

A sequência lógica deste tri no México é a largada para uma nova disputa nacional: colocar uma quarta estrela verde na camisa amarela, com os exageros de sempre. Então, que venham novas Copas e taças, de 4 em 4 anos, com outros nomes e sistemas de disputa. Estamos prontos, com o mesmo amor e dedicação. Mas precisamos melhorar em 2 quesitos: saber reconhecer o valor dos concorrentes e ter um pouco de humildade.
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Luiz Otávio, meu Tatá, você é pequeno demais para entender certas coisas. Mas, se um dia alguém lhe disser que um homem de verdade não chora, diga-lhe por favor, meu filho, que no dia 21 de junho de 1970, no superlotado Estádio Azteca, da Cidade do México, enquanto Gérson chorava de joelhos na grama, e o capitão Carlos Alberto Torres levantava gloriosamente a  Taça Jules Rimet  na Tribuna de Honra, dezenas de jornalistas esportivos brasileiros, homens tarimbados, vacinados contra todas as emoções da vida e da profissão, choravam também.

Entre eles,seu pai (hoje com  33 anos), orgulhoso de ser brasileiro e explodindo de felicidade.
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PS: Luiz Otávio Noce Fraga  morreu aos 12 anos, em 6 de novembro de 1982, vitima do tumor cerebral meduloblastoma, depois de tentar a cura impossível na Inglaterra e nos Estados Unidos. Em sua memória, o pai escreveu o livro "O Menino Valente", com renda para as crianças cancerosas indigentes do Hospital Mário Penna, em BH-MG. Várias edições estão esgotadas.

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Belo Horizonte-MG, Brasil
Dia 06 de agosto de 2018
Editor - Hélio Fraga
Postagem e edição--Ana Cristina Noce Fraga

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