terça-feira, 4 de setembro de 2018

ILHÉUS NÃO ESTÁ PREPARADA PARA RECEBER ESSES NAVIOS GIGANTESCOS

Catedral de São Sebastião domina o centro histórico de Ilhéus


Tudo que se relaciona com cruzeiros marítimos sempre interessa a Minas Gerais, porque nosso mercado, mesmo em épocas desfavoráveis como agora -retração generalizada dos negócios, classe média altamente endividada, desvalorização acelerada do real frente ao dólar e economia rodeada de riscos e perigos nas eleições presidenciais e parlamentares de 7 de outubro - é considerado um dos períodos de maior movimento no quesito de viagens maritimas de verão. E o movimento de vendas só não é maior porque as grandes armadoras estrangeiras – como MSC Cruzeiros, Pullmantur, Costa Cruzeiros, Royal Caribbean, Carnival e NCL – não dão maior atenção ao nosso mercado. E, por extensão,pelas deficiências de muitas operadoras de excursões e agências de viagens. Os cruzeiros são uma mina de dinheiro, pena que o turismo brasileiro, generalizadamente, não acredite nisso, tal a falta de profissionalismo.

O porto de Ilhéus sempre foi depósito para exportação de cacau

Como faltam quatro meses para o início da temporada de cruzeiros de verão, a situação dos portos brasileiros continua na mesma. Não há nenhuma obra aparente de melhoria, a começar pelo porto de Ilhéus, na Bahia. Nada mudou. Aquele imenso galpão serve mais para exportar cacau e grãos para mercados europeus. Não é um porto para atendimento a turistas nacionais em férias. Talvez não haja nem banheiros químicos para quebrar o galho. E,todas as semanas,um meganavio de 323,3m de comprimento vai chegar a Ilhéus, despejando no porto 5.331 passageiros com pressa, doidos por uma praia, somando-se a eles alguns dos 1.413 tipulantes. Em geral, uma escala na capital do cacau, a caminho de Salvador, dura de cinco a sete horas.

O navio é o MSC Seaview, que chega na primeira quinzena de dezembro e fica no Atlântico Sul até março. Se tudo correr bem, pode-se comemorar o sucesso da empreitada. Mas,se correr mal, será um fracasso operacional,significando que a temporada foi mal planejada. E pelo menos um dos portos escolhidos (no caso,Ilhéus) não estava à altura das responsabilidades que teve de assumir.

Então,a escala fica cancelada pelo menos na próxima temporada porque queimou o filme. Ilhéus já teve cerca de 40 navios escalando lá em determinados anos, mas o número de embarcações foi-se reduzindo progressivamente – o que é um sinal de alerta para a cidade,significando que suas instalações foram reprovadas.

O MSC Seaview é o maior navio de cruzeiros que já veio ao Brasil

Nunca um navio tão gigantesco atracou nos nossos portos. Ele transporta pelo menos o dobro da lotação de um grande navio – como o Soberano,Costa Fascinosa, MSC Preziosa etc. As demandas de um meganavio como o MSC Seaview são muito maores. Exemplo: em vez de 40 ônibus de luxo enfileirados no porto, à espera dos passageiros que vão fazer excursões, terão de ser 80 ou 100. Para muitos observadores, a MSC está apostando alto e isto pode ser uma temeridade. Significa que,em cada 3 passageiros, um paga o valor integral da passagem,o outro tem 50% de desconto e o menor viaja grátis, pagando só as taxas.

Enfim, resta torcer para que, aproveitando o embalo da eleição de 7 de outubro – Ilhéus capriche no seu visual,e cause boa impressão aos visitantes. E cuide melhor da sinalização da cidade, da limpeza urbana, da educação de seus taxistas e do bom atendimento no comércio. Os preços do cacau caseiro estão muito elevados e podem baixar.

Os tobogãs aquáticos ficam a 100 metros do nível do mar

              A INESPERADA PERDA DO GOLEIRO MARCIAL

Marcial encurtou sua carreira esportiva por amor à medicina


Não podia imaginar que a viagem a Ilhéus, por 3 dias, tivesse esse inesperado desfecho de coincidir com a morte de meu maior amigo no futebol, aos 77 anos: o doutor Marcial de Melo Castro, ex-goleiro do Atlético, Flamengo, Corínthians Paulista e seleção nacional. Para mim, ele foi em seu tempo o maior camisa 1 do Brasil. Aliás, naquela época as camisas utilizadas pelos goleiros eram a número 1 para o titular e 12 para os reservas. Hoje não, virou um circo, e surgem goleiros com as camisas 25, 23, 21, 18, 23, 33, 38, 55, 69, 99 etc.

Por causa de Marcial, procurei compará-lo sempre com os melhores que eu via nas Copas. 

O futebol me deu, de presente, a oportunidade de ver - ao vivo -, alguns dos melhores goleiros do mundo: o russo Lev Yashin, o alemão Sepp Mayer,o britânico Gordon Banks, o uruguaio e atleticano Mazurkievsky, e o espanhol Zamora , o português Costa Pereira, o holandês Jongbloed. Sou do tempo de Gilmar no Santos, Leão no Palmeiras, Castilho no Fluminense, Manga no Botafogo, Andrada no Vasco, Pompeia no América do Rio, Ubirajara no Bangu, Waldir no Grêmio, Zeca e Luís Perez no gol do Galo, Tonho no América mineiro e Geraldo II, Mussula,Genivaldo e antigo Fábio (cunhado do cardeal Dom Serafim) no Cruzeiro; Carivaldo no Valério e Sparta de Campo Belo; Arizona e Dick no Villa Nova.
Marcial foi herói de muitos Fla-Flu com suas defesas arrojadas
 Acompanhei, durante anos, bons goleiros do interior de Minas, nos jogos do São Bento e União de Itapecerica, Athletic de São João del Rey, Vila do Carmo de Barbacena, Flamengo de Santo Antonio do Monte(na época de Zizinho do Beraldino), Ferroviário e Guarani de Divinópolis, Siderúrgica de Sabará, Metalusina de Barão de Cocais, Santa Cruz de Santa Luzia, Meridional de Conselheiro Lafaiete; e ainda Sport, Tupi e Tupinambás de Juiz de Fora, Dorense, Cassimiro deAbreu de Montes Claros, Curvelo E.C., Carmo da Mata, Corinto,Diamantina, Serro,Sete Lagoas,Januária, Jequitinhonha, Paracatu, João Pinheiro, Lagoa da Prata, Pirapora etc. E ainda Araxá, Poços de Caldas, Pouso Alegre, Caxambu, Lambari,São Lourenço, Campanha, Ituiutaba, Varginha,Três Corações (terra do Rei Pelé), Uberaba, Uberlândia, Araguari, Patos de Minas, Sacramento, Tupaciguara...



                MINEIRO ILUSTRE DE TUPACIGUARA


Apaixonado pelo Atlético, ele sempre sonhou em ganhar o Galo de Prata


Foi no futebol amador de Tupaciguara,no Triângulo Mineiro, que surgiu o goleiro Marcial de Melo Castro, filho de seu Bolivar Crisóstomo e de dona Custódia de Melo Castro. Como tantas famílias do Alto Paranaíba, os Melo Castro se mudaram para Belo Horizonte e foram morar na Rua Aquiles Lobo, na divisa da Floresta com Santa Teresa, dois grandes rivais no Carnaval e no futebol . Marlene foi a filha mais velha, médica. Paulo Roberto fez carreira bancária e se aposentou no Banco Central e José Leopoldo é cardiologista. O coração de Marcial sempre balançou entre a bola e a medicina. Mas podia ter uma carreira longa. Morou 3 anos em Pitangui e depois voltou a BH.Preferia as cidades pequenas do interior. Gostava de um cigarrinho de palha e de pescar.


O Brasil descobriu Marcial no gol da Seleção Mineira, que ganhou o Campeonato Brasileiro de 1963 no velho Estádio Independência. Tinha um timaço, com Marcial, William, Procópio, Ilton Chaves,Amaury Horta, Luiz Carlos, Rosssi, Marco Antônio e Ari Souza. Mario Celso de Abreu foi o técnico, e os treinos na Colônia de Férias do Sesc em Venda Nova.Com defesas monumentais, Marcial carregou o time nas costas.


Quando passava férias em Minas, Marcial sempre trazia um colega do Flamengo para experimentar os pratos mineiros feitos por dona Custódia. O volante Carlinhos era um dos jogadores cariocas sempre convidados. Outra vez, veio o goleiro Joélcio. Marcial gostava muito de peixe assado, frango ao molho pardo, feijão tropeiro e feijoada. Sua marca de cerveja preferida sempre foi Brahma. Gostava de ver filmes caipiras de Mazzaropi e ouvir música sertaneja de Sérgio Reis.

Podia ter havido mais goleiros na família Melo Castro,se seus filhos Alexandre (hoje com 48 anos),Marcelo (46) e Rodrigo (43) levassem o futebol a sério. A família inteira sempre torceu pelo Galo. Nem devia contar isso agora, porque se trata de uma falha do clube: Marcial revelou aos 4 filhos e 4 netos (Pedro e Francisco, de 16 e 18 anos,e Marcela,de 9 anos, eDaniel, de 5) sua mágoa por nunca ter recebido um Galo de Prata, com que o Atlético homenageia seus heróis. Uma das ganhadoras foi a cantora Cássia Kiss.Não se sabe quais os “relevantes serviços” que ela pode ter prestado ao clube.

Pelos depoimentos de amigos da família, seus quatro filhos (a única mulher é Márcia, caçula de 38 anos), entre vários colegas de profissão,estiveram no velório do Parque da Colina, dia 3 de agosto,   ex-jogadores como Procopio Cardoso Neto, Buião,Evaldo, Amarelinho, Helinho Gomes, Pedro Grazziani, Amaury Horta, Jair Bala, Jardel, Marcelino e outros craques do passado. Também estiveram presentes vários frequentadores do Bar do Xumba, na Rua Salinas com Jaspe, onde Marcial viu pela TV alguns jogos da Copa da Rússia. Outros foram à missa da ressurreição,ao sétimo dia,na Igreja de N. S.das Dores,na Floresta.O casal Marcial e Hilda ia comemorar Bodas de Ouro em 14 de dezembro próximo.Eles se casaram na Boa Viagem em 1968.

Pena que Marcial de Melo Castro não tenha vivido o bastante até ver seu neto Daniel, de 5 anos, cumprir sua promessa de ser goleiro titular do Atlético por volta do ano 2030. E encantando a Massa atleticana e as torcidas adversárias com as defesas de mão trocada, com a mesma perfeição com que o vovô Marcial fazia.
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PS: Espero que na próxima edição doTroféu Guará, a Rádio Itatiaia - a maior festa do Esporte mineiro – o competentíssimo jornalista e diretor Emanuel Carneiro consiga acrescentar ao programa uma justa homenagem póstuma a dois grandes vultos do nosso futebol que perdemos em 2018: o volante e armador José Carlos Bernardo,ex-Cruzeiro e Guarani de Campinas,e o atleticano roxo Marcial, das defesas épicas. Eles serão sempre lembrados pelas alegrias que deram às duas maiores torcidas de Minas. São oportunidades que a Rádio Itatiaia não deve perder, até para reconhecer e relembrar tantos ex-craques que morreram pobres, abandonados e esquecidos. Se não for o Emanuel, quem vai fazer? - Só ele mesmo.
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PS2:Desculpem o atraso de um mês para fazer este blog. Estou com a mão esquerda engessada há mais de 4 semanas, daí o atraso na preparação do texto, catando as letras do computador. Não vou esquecer Marcial nunca. Assim como Dirceu Lopes, ele foi meu ídolo também.

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Belo Horizonte-MG/Sudeste do Brasil
03 de Setembro de 2018
Hélio Fraga - Editor
Postagem e edição - Ana Cristina Noce Fraga

(www.hfraga.rmj@gmail.com)

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