quinta-feira, 2 de maio de 2019

AYRTON SENNA DO BRASIL: 25 ANOS DEPOIS, RESTA UMA GRANDE SAUDADE



Passados 25 anos  depois da tragédia que tomou de assalto os nossos corações,  num domingo de céu azul, dia 1º  de maio de 1994, no Circuito de Imola, em San Marino, é como se essas duas décadas e meia no relógio do tempo não tenham acontecido, porque o povo brasileiro não esqueceu Ayrton Senna do Brasil, nem as alegrias que ele lhes deu nas corridas de Fórmula 1. O legado do grande Senna, tricampeão mundial de automobilismo -  por muitos considerado o maior piloto de todos os tempos -, persiste de maneira intensa, e ele continua vivo na memória e no coração dos brasileiros. Feliz de quem o viu no auge de sua carreira, feliz de quem chorou por ele - porque são  lágrimas abençoadas.

Tenho de falar dele hoje, é um imperativo de consciência, pois vivi tudo isso de uma maneira intensa por circunstâncias da minha profissão. Tenho orgulho deste passado. Nunca reneguei o Esporte, ou o considerei uma tarefa  secundária. Fui colunista e editor de Esportes por quase 3 décadas em jornais de Minas, inclusive por 17 anos no maior deles (Estado de Minas), respeitado nacionalmente. Assinei colunas e matérias esportivas nos jornais "Diário de Minas", "Correio de Minas" e revista "3 Tempos", semanários "Binômio" e "Jornal de Domingo", e fui responsável por programas esportivos na TV Itacolomy, canal 4 (Bola na Área), TV Alterosa, canal 2 (Esporte, Urgente); e TV Belo Horizonte, canal 12 (As Duas Faces do Esporte)  na futura Rede Globo. 



No jornal "Hoje em Dia", além do Caderno de Turismo por 26 anos, fui editor (sem salário) de um Caderno de Veículos, onde participei de lançamentos de automóveis no Brasil e exterior, a convite de montadoras brasileiras e internacionais, quase sempre com participação de Leonardo Senna, irmão de Ayrton, muito ligado à Audi. Minha admiração por Ayrton Senna não teve limites, sempre o considerei o maior cidadão brasileiro de todos os tempos, acima de Pelé.

Senna deu aos brasileiros, e ao esporte mundial, reiterados exemplos de dedicação, responsabilidade, superação dos próprios limites e perfeccionista nos mínimos detalhes. Corajoso ao extremo, frio e  calculista nas decisões mais difíceis - como fazer uma ultrapassagem considerada impossível no mais perigoso circuito do mundo, que é o GP de Mônaco, em Monte Carlo. Senna tentava superar a si próprio, um eterno insaciável. Essa gana de vencer, superando-se, foi sua marca registrada e sua herança.

              O MAIOR PILOTO DE TODOS OS TEMPOS

Não vi o argentino Juan Manuel Fangio correr, e o que sei dele é aquilo que  imprensa publicou  - foi realmente um  grande piloto, e elevou o nome de seu país às alturas, mas são escassas as imagens de suas corridas e os carros eram menos potentes. Mas, nesses anos todos de carreira, acompanhando a Fórmula 1 pela imprensa  desde 1956, e como jornalista desde 1960, assisti a diversos GPs disputados por Jim Clark, Jackie Stewart, Jack Brabham, Nicl Lauda, Alain Prost,  Nigel Mansell, Michael Schumacher, Ronnie Petterson, Kimi Haikkonen, Jean Alesi, Riccardo Patrese, Graham Hill, o belga Thierry Boutsen (o maior amigo de Senna nas pistas, Gehrard Berger (outro amigo íntimo), Ivan Capelli, Jos Verstappen, David Coulthard, Alessandro Nannini, Derek Warwick, Mika Haikkonen, René Arnoux,  Andrea de Cesaris, Aguri Suzuki, Satoru Nakajima, François Cevert, Jochen Rindt, Jo Siffert, Michele Alboretto, Clay Regazzoni, Niki Lauda, José Carlos Pace,  Maurício Gugelmin, Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet, Roberto Pupo Moreno  e tantos outros, até chegar aos tempos modernos de Fernando Alonso, Felipe Massa, Rubens Barrichello e a geração atual, onde o inglês Lewis Hamilton é disparado o melhor de todos (por sinal, grande fã de Senna e nele se inspirou).

Ayrton Senna do Brasil, para mim, foi o maior de todos, chegando ao máximo de perfeição que um ser humano pode atingir - pois a perfeição absoluta está em Deus. Seus números na Fórmula 1 são difíceis de alcançar, embora já tenham sido superados. Ao morrer tão violentamente, ao vivo e a cores na TV, naquele fatídico 1º de maio de 1994, na curva Tamburello do autódromo de Imola, em San Marino, ele contabilizava 161 GPs disputados, 65 pole positions (largar em 1º lugar), 2.982 voltas na liderança e 41 vitórias, conquistando 3 títulos mundiais, todos com a escuderia McLaren e motor Honda. E Senna com seu tradicional capacete verde e amarelo, com o escudo azul do Banco Nacional, mineiro de origem (família Magalhães Pinto).

A trajetória do mito Senna é impressionante: primeiro título brasileiro de kart em 1978; vice-campeão mundial de kart em 1979; novamente vice-campeão em 1980; campeão inglês de Fórmula Ford 1600 em 1981; campeão inglês de Fórmula Ford 2000 em 1982 e campeão inglês de Fórmula 3 em 1983 com recorde de vitórias - já nesta época tinha admiradores no cenário internacional, pois era uma realidade e não mais uma promessa. A Fórmula 1 já o esperava, num patamar mais alto.

Foi assim que Senna fez sua primeira pole position no GP de Portugal, disputado no circuito de Estoril,onde conseguiu sua primeira vitória pela Lotus. Os brasileiros despertaram para Senna e rapidamente o transformaram em ídolo, e as manhãs de domingo se tornaram um encontro das famílias dos torcedores com o piloto. Senna firmou seu conceito com sucessivas vitórias, fruto de sua competência e com sobras de dedicação, comprometimento, persistência, idealismo e coragem (muita coragem). Aí começou também sua rivalidade com o piloto francês Alain Prost, porque, a bordo de uma McLaren vermelha e branca, igual tecnicamente à de Senna,ele nunca conseguia tempos iguais aos do  brasileiro nas pistas. Uma rivalidade que ganhou repercussão mundial através das grandes revistas esportivas inglesas, francesas e alemãs.

Pilotando as McLaren de números 1,  8 e 12, e impondo seu talento em cada circuito da F-1, Senna esbanjou talento e categoria, e colocou sua vida em risco em cada prova disputada em Monte Carlo, Monza, Spa-Francorchamps, Barcelona, Jerez de la Frfotera, Hungria, Hockenheim, Nurburgring, Melbourne, Montreal, Paul Ricard (Le Castelet), Zandvoort,  Cidade do México, Estoril, Silverstone, Phoenix-EUA, Zeltweg etc. 

A cada domingo de festa na Fórmula 1, os brasileiros vibravam e se emocionavam ao ver Senna segurando a Bandeira Nacional ao dar sua volta triunfal, após mais uma vitória. Naquela época, o Brasil estava no fundo do poço: moeda desvalorizada, inflação de 85%, desmoralização da classe política, greves de metalúrgicos, invasões de terras etc. Senna era nosso antídoto contra esses flagelos. Suas vitórias eram nossa alegria e conforto moral. Ele fez mais pelo Brasil do que todos os nossos governantes, em todos os níveis.

Enquanto a imagem política e econômica do Brasil era péssima (inclusive terra sem lei, explorador de turismo sexual no Nordeste, mau pagador e país caloteiro), Senna mostrava ao mundo um Brasil diferente -  forte, respeitado e vencedor. Merecia ter seu nome em cada cidade média deste país: Praças Senna, Avenidas Senna, Ruas Senna. Muito melhor do que ter avenidas e praças com os nomes de governantes ladrões, corruptos e desmoralizados, ditadores, interventores, exploradores do povo, gangsters da política mais baixa que se pode imaginar. Ainda há tempo para se corrigir essa injustiça que já dura 25 anos. Eu me espanto que Belo Horizonte nunca tenha colocado Ayrton Senna como patrono de uma de suas avenidas principais. Alguns dos nomes escolhidos como patronos de ruas e avenidas em BH nos envergonham.


               O MAIOR ENTERRO QUE O BRASIL JÁ VIU 

Acredito que Senna já estava morto na pista quando seu corpo foi levado,numa maca, ao helicóptero vermelho e branco número 118, que o transportou ao Hospital Maggiore de Bologna. Aquelas declarações de "nessuna speranza" (nenhuma esperança) pelo corpo médico do hospital foram uma forma de ganhar tempo para confirmar oficialmente  sua morte. Com a violência do choque a 350 km por hora, um braço da transmissão do Williams nº  2 perfurou seu capacete e atingiu em cheio sua cabeça. Aquela era a maior notícia do mundo em 1994.

Uma colossal comoção popular  cercou a morte de Senna. Parece que o Brasil inteiro  ficou órfão: crianças em pranto, pessoas chorando nas ruas, uma tristeza profunda,  luto nacional. Quatro dias depois da tragédia de Imola, o corpo do piloto tricampeão mundial foi trazido de Milano-Malpensa, na Itália, ao Aeroporto de Guarulhos, dia 5 de maio, pelo MD-11 da Varig, prefixo PP-VOQ. Era tanta gente ao longo do percurso até o centro de São Paulo que o Brasil inteiro parecia reunido na cidade natal dele para lhe prestar esta última homenagem. Eram milhares de pessoas, de todas as classes sociais, unidas na mesma dor. Milhares de bandeiras verde e amarelas. As aulas nas escolas paulistas foram suspensas. Parte do comércio cerrou as portas.


Durante horas, os órfãos desamparados de Senna desfilaram ao redor da urna, com filas gigantescas protegida por cordões de isolamento. Havia de tudo ali: duas viúvas extra-oficiais (Xuxa e Adriane Galisteu), presidente da República (Itamar), governadores, embaixadores, ministros, prefeitos, autoridades em todos os níveis, nomes famosos das artes e, principalmente, gente comum, sem títulos e sem pompas, operários e estudantes, mães de família, cuja dor certamente era mais sincera. Alain Prost veio de Paris para segurar a alça do caixão, ao lado de gente do mundo do automobilismo - e não houve qualquer reação à sua presença. Ainda em vida, ele e Senna resolveram suas diferenças.

Em caminhão vermelho do Corpo de Bombeiros, precedido por baterias de policiais motorizados e tropas da Cavalaria - e seguido por milhares de pessoas -, o corpo de Senna foi levado para sepultamento no cemitério do Morumbi. Seu túmulo, visitado ainda hoje por dezenas de pessoas, e cheio de flores, está coberto pela placa dourada:  "Nada pode me separar do amor de Deus". QUE GRANDE FINAL!!!

--------------
PS: Um aviso aos veteranos "Cemiguianos" que participaram do último Encontrão da Velha Guarda da AEA/MG, na semana passada, na estância paulista de Águas de Lindóia: o prometido Blog sobre esta viagem sai no próximo final de semana,  podem ficar atentos. Querem nos tomar nossa Cemig, que é poderosa, organizada e muito lucrativa. Ela tem de ser tratada como patrimônio de cada cidadão mineiro. Fora com os aproveitadores, que já roubaram muito dela, impunemente.



-------------

Belo Horizonte/MG - Brasil
Dia 1º de maio de 2019
Editor -Hélio Fraga
Postagem - Ana Cristina Noce Fraga

Nenhum comentário:

Postar um comentário