segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

A MORTE DE LUIZ FERNANDO PEREZ








Luiz Fernando Perez, torcedor do América, 78 anos, um dos mais brilhantes jornalistas mineiros


Ele foi muito mais do que um grande jornalista, de texto impecável e preciso, sem uma virgula fora do lugar. Teve sempre personalidade e objetividade, respeitando a privacidade alheia, convivendo com as divergências e respeitando as opiniões contrárias. Deu direito de defesa aos acusados e lutou bravamente pelos direitos sociais e contra as desigualdades. Foi o melhor amigo que alguém poderia ter, pela boa convivência, companheirismo e sentimento de fraternidade. Amou esta cidade, onde nasceu. Seu nome completo é Luiz Fernando Perez Pereira (mas sempre dispensou o Pereira), frequentou as melhores  Redações de Minas e sempre esbanjou talento em todas as funções exercidas - como a redação das melhores matérias divulgadas pela maior emissora da televisão mineira nos anos 60 e 70, através dos programas informativos tipo Repórter Esso - como Jornal Bancominas, apresentados por nomes consagrados como José Lino de Souza Barros, Jaime Gomide, Rubens Silveira, Roberto Márcio, Renê de Chateaubriand Domingues e outros grandes apresentadores da época.

Como um amargo presente de Natal aos cidadãos  mineiros, o jornalista Luiz Fernando Perez nos deixou no dia 24 de dezembro, falecendo aos 78 anos e sendo sepultado no Parque da Colina. Deixou viúva Maria Honorina de Souza Perez, e três filhos, três irmãos e seis netos. Entre os presentes ao seu velório, levado pelo filho Guilherme, o jornalista Guy de Almeida, maior revelador de talentos na imprensa de Minas Gerais -, a quem  tive a honra de apresentar Luiz Fernando, então com o segundo grau completo (ainda não havia Faculdades de Comunicação), candidato a uma vaga de repórter esportivo no recém-lançado jornal "Correio de Minas" e revista 3 Tempos, no começo dos anos 60. Então, fui padrinho de jornalismo para Luiz Fernando, Carmo Chagas, Antônio Beluco Marra e outros talentos que deram fama e qualidade à Imprensa mineira e nacional. Luiz Fernando teve um irmão jornalista (Rogério Perez, talento nato, que dispensa apresentações) e uma filha também jornalista, Adriana Perez, que está atuando na assessoria da OAB Nacional em Brasília -DF. Os filhos Luizinho, Rafael e Adriana lhe  deram seis netos - cinco mulheres e um rapaz.


A causa de sua morte foi um câncer, palavra à  qual ele nunca se referiu como doença, porque a chamava de "meu problema". Enquanto muitos fazem do câncer a Indústria da Piedade Alheia e do Sofrimento, Luiz Fernando o escondeu de todas as formas possíveis, utilizando o silêncio constante como o grande segredo de sua vida,e fez isso durante anos, passando por cirurgias,radio e quimioterapia, e tentando todos os recursos possíveis, durante mais de duas décadas. Como ele era meu padrinho de casamento, acabei sendo o depositário fiel de seu segredo. 

Luiz Fernando criou há anos a Confraria, para reunir seus colegas de jornada em um bar modesto e limpo, com salgadinhos feitos na hora e cerveja gelada,  uma vez por mês - sempre na 2ª terça-feira, às sete da noite. Em volta dele, estavam em média de 10 a 15 colegas de profissão, contando casos antigos e experiências de vida, ou jogando conversa fora. E eu, depositário de seu segredo, ficava ouvindo tudo aquilo e pensando que nenhum desses ex-colegas e amigos tinha a menor noção da gravidade seu estado e do breve tempo que lhe restava. Como a cerveja não combinava com alguns remédios fortes que  ele tomava, para despistar, ele e eu bebíamos limonada ou água mineral. Claro que o Chumba, dono do bar em Santa Tereza, não tinha a menor noção de seu problema.

Alguns desses  colegas assíduos: Sérgio Augusto Carvalho, Pantera, Vilma Fazitto,  Sérgio Prates, Antônio Melane, Ronan Ramos, Walter Serrano, Washington Melo, Olímpio Coutinho, Hiram Firmino, Walter Luiz e outros amigos. Os encontros passaram  há um ano para outro bar mais perto da casa dele. na Av. Francisco Deslandes, no Anchieta. Nas últimas semanas, ele já não conseguia andar - alegando joelhos inflamados - e teve de ser carregado para subir e descer as escadas de seu prédio, na Rua Campanha 35, perto da Igreja do Carmo, na Rua Grão Mogol.

Até quando pôde andar, Luiz Fernando ia habitualmente à missa de Frei Claudio van Balen, às onze da manhã, aos domingos, na Igreja do Carmo. Almoçava em casa, ao lado dos filhos e dos seis netos, genro e noras. Maria Honorina, esposa dedicadíssima, 24 horas por dia ao seu lado, sempre foi excelente cozinheira e atendia a todos os seus caprichos. Ela foi tudo a um só tempo: acompanhante de idoso, psicóloga, enfermeira, cozinheira, secretáaria  e assistente social. Desdobrou-se ao máximo. Nos momentos críticos, exausta, ela ficava desgastada sem ter a quem recorrer, só a família.

Luiz Fernando era do tipo família mesmo, muito ligado, sempre presente, um super-avô. Assim como foi ótimo irmão para Rogério, Nancy e Carmen, foi o melhor sogro possível para Antônio Cotta (Toninho), atualmente separado de Adriana; a nora  Elisa, casada com Luizinho; e a nora Fabiana, casada com Rafael. Este é formado em Engenharia Civil pela PUC-Minas e Luizinho (Luiz Fernando de Souza Perez) , formado em Administração pela Fumec.  Os amores do avozão: Letícia (20 anos) e Felipe (19) são filhos de Adriana e Toninho; Carolina (20) e Laura (13), filhas de Luizinho e Elisa; e Júlia (7 anos) e Rafaela (3 ), filhas de Rafael e Fabiana.

Tentando não me estender demais, devo dizer que Luiz Fernando sempre foi modestíssimo em relação à sua competência, e jamais almejou glórias acadêmicas, doutorados, mestrados, PhDs e outros tipos de consagração profissional ou projeção social. Seu texto sempre foi um dos melhores não da Imprensa mineira, mas da nacional. Parecia um Armando Nogueira, nosso ídolo. Também não lutou por dinheiro, mais poder ou cargos importantes. Cumpriu suas tarefas, deu conta de todas as missões. Não tinha ambição de mandar, parecia não gostar de dar ordens. Fui seu chefe duas vezes, e ele até exagerava na dedicação ao trabalho e na vontade de fazer bem feito. Claro que nunca falou ao serviço, nem reclamou horas extras. Quando o salário atrasava, ele entrava na fila da Redação para fazer um vale de 10 cruzeiros antigos.

Luiz Fernando foi um excepcional jogador de futsal, tinha um canhão no pé esquerdo, jogou bola pacas (eu sempre fui um goleiro frangueiro).  Podia ter sido atacante profissional do América, seu clube do coração, se quisesse. Creio que jamais aceitaria ser diretor de jornal ou de  emissora de TV. Seu ambiente era a cozinha da Redação, relendo matérias, refazendo textos, eliminando incorreções, dando sentido a certas opiniões - os outros apareciam às custas dele, como um certo arcebispo metropolitano com veleidades intelectuais. O "Estado de Minas" certamente se orgulha de sua contribuição, assim como o jornal "O Estado de S. Paulo", cuja sucursal mineira ele comandou por 15 anos. Luiz Fernando fez parte, também, dos anos mais gloriosos das TVs Itacolomy Alterosa, que deixaram tantas saudades - assim como ele deixa.



Numa festa de 80 anos no Minas II, em abril de 2017: Hélio e Ana Maria Noce Fraga, Luiz Fernando Perez e Maria Honorina, Leny e Erasmo Angelo, Walter Castro Leite e Maria Amélia, e Ronan Ramos de Oliveira -ao fundo, a pianista Leda Tavares


PS: Adeus, velho amigo e companheiro. Descanse em paz. Conforto, consolo e aceitação para sua família. Sua missa de 7º dia será na segunda-feira, dia 30/12, às 19h, na Igreja do Carmo.

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Do fundo do coração, meus votos de um feliz e próspero 2020 para os que acompanham este blog, e a todos brasileiros que pedem a Deus para jamais voltarmos a ser presididos ou governados por desonestos e corruptos;   e que a Lava-Jato cumpra sua missão até o fim.
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Hélio Fraga -Editor
Ana Cristina N. Fraga - Postagem e edição
28 de dezembro de 2019

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